16 de nov. de 2010

b16

«(Raposa): E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vais ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo...»

Já tudo me lembra de ti,
até
bancos de quintal e
bolos de chocolate.
(aguarela de Antoine de Saint-Exupèry (?))

9 Setembro 2010

04h56

eu sei que tu tens medo do escuro,
mas eu estou aí contigo.

não faças como eu, que choro.


e o tempo que não passa...

8 Setembro 2010

o beijo dos avós

Estão os avós sentados na cama, o avô a oxigénio e a avó com as lentes dos óculos a reflectirem concentradamente a novela, quando a minha irmã mais nova dá início a um novo inquérito:
- Vocês estão casados há muito tempo?
A avó confirma com um gesto de cabeça.
- E ainda não se sabem beijar? Porque é que não se beijam? Estou a ver que tenho muito para vos ensinar...
A avó entreolha o avô e riem-se os dois:
- Não, não sabemos beijar-nos.
- Querem que vos ensine?
Por piada, os dois insistem que ela os ensine. Ela faz o tipo de ginástica com os lábios que vê nas novelas, mas pacientemente, para que os alunos absorvam a informação. No final, como boa professora que é, incita-os a praticarem:
- Agora são vocês.
E a avó e o avô viram-se um para o outro e ensaiam os mesmos gestos, sob o olhar atento da neta mais nova, sem conseguir, contudo, conter o riso. E assim uma pirralha de 4 anos traz beijos a casamentos que, possivelmente há vinte anos, não viam um.
7 Setembro 2010

banco de quintal

Quando me sentei a teu lado, hesitante em pegar ou não na tua mão, estendi-te a caixinha com o bolo de chocolate. Garanti-te que ninguém to ia tirar, era teu - ainda assim comeste-o tão depressa quanto conseguiste. Enquanto o mastigavas, o rosto a sujar-se com ele, soube que naquele momento estava a fazer-se história. Fitava o teu braço, os pêlos negros que o cobrem, a palidez da tua pele e a delicadeza do teu pulso. Estás mais magro, penso, enquanto sei que, naquele momento, a história já está feita. Daqui por diante, o chocolate, o bolo de chocolate, não será mais um prazer solitário, um capricho a que sou incapaz de negar-me quando estou a sós, quando me sei sozinha, quando quero sentir o conforto que só os abraços e o chocolate são capazes de transmitir. De agora em diante, o chocolate, os bolos de chocolate, seremos eu e tu sentados num banco, num quintal com um poço ao centro - nem sei ao certo quem mais estava connosco. Serei eu a ganhar coragem e a por o orgulho e as restrições de lado, a puxar-te para baixo do meu braço e a beijar-te a têmpora. Serei eu a decidir toda a minha vida a partir de amanhã, todo o meu futuro, por amor a ti. E serei eu a segurar a tua mão, como nunca tinha feito antes, e a sentir que o momento não foi forçado, não o fiz somente porque precisasses, porque ficasse bem, fi-lo porque o quis, mais do que tudo. Não vou a lado nenhum, e um dia vou aí buscar-te.

6 Setembro 2010

sonho vago

E neste sonho eu já nem sei quem sou…
O brando marulhar dum longo beijo
Que não chegou a dar-se e que passou…

Um fogo-fátuo rútilo, talvez…
E eu ando a procurar-te e já te vejo!
E tu já me encontraste e não me vês!…

Florbela Espanca, Sonho Vago

6 Setembro 2010

nu e cru

«Disse-lhes que o homem se vinga porque acredita que a sua vingança é justiça; encontrou, pois, a razão fundamental, que é a justiça, e assim fica em paz; de maneira que se vinga com toda a calma e satisfação, persuadido de realizar um acto honesto e justo. Mas eu não vejo nisso justiça nem virtude e, por conseguinte, se me vingo, deve ser por maldade pura»

 Fiódor Dostoiévksi, A Voz Subterrânea

2 Setembro 2010

monstro de olhos verdes

  • No ciúme, há mais amor-próprio do que amor - La Rochefoucauld , François
  • Despreza-se um homem [ou mulher] que tem ciúmes da mulher [ou do homem], porque isso é testemunho de que ele [ela] não ama como deve ser, e de que tem má opinião de si próprio [a] ou dela[e] - Déscartes, René
  •  Todas as mulheres [homens] sabem que os ciumentos são os primeiros a perdoar - Dostoievsky, Fiodor
  • O ciúme é muitas vezes uma inquieta necessidade de tirania aplicada às coisas do amor - Proust, Marcel
  •  Uma vez descoberto, o ciúme passa a ser considerado por quem é objecto dele como uma desconfiança que autoriza a enganar - Proust, Marcel
  • É espantoso como o ciúme, que passa o tempo a fazer pequenas suposições em falso, tem pouca imaginação quando se trata de descobrir a verdade - Proust, Marcel
  • É impossível exprimir a perturbação que o ciúme causa a um coração em que o amor ainda se não tenha declarado - La Fayette, Marie
  • Como ciumento sofro quatro vezes: por ser excluído, por ser agressivo, por ser doido e por ser vulgar - Barthes, Roland
  • O ciúme é a afirmação de um direito de propriedade - Ferreira, Vergílio
  • No ciúme conjugam-se a inveja e o ódio, causando devastações na vida social - textos cristãos (?)
  •  O ciúme tem as suas raízes, mais no egoísmo do que no amor - Longfellow, Henry
  • O ciumento é um mártir que martiriza - Diane, Condessa
  • A língua do ciumento devasta tudo o que toca - Massillon, Jean
  • O ciúme, que irritante. É uma expressão da avidez da propriedade, ou da petulância do domínio, ou do gosto da escravização - Ferreira, Vergílio


30 Agosto 2010