Deus, devias existir. A existir, devias ter o poder de inverter a ordem das coisas. Mas sim, eu compreendo que, tal como num jogo de xadrez, o rei às vezes esteja condenado ao xeque, ou alguma peça tenha que se perder. O mal está na primeira jogada, que foi mal pensada. E agora, o que faremos com o tempo que já perdemos? Oiço a respiração da minha irmã de quatro anos. Há quatro horas atrás eu apagava a luz da cozinha, acendia dois fósforos na escuridão e projectava os meus dedos, a caminharem sobre a mesa da cozinha em contra-luz, numa folha de papel branco. Os seus olhos atentos observavam, arregalados. A sua mente activa ia sugerindo desfechos para a história, alguns deles tão possíveis quanto o oficial. Agora, tenho consciência de tanta coisa que ontem não tinha… felizmente, a dor lava-me a alma. O castigo por ter optado pelos movimentos errados é esta aliança entre tempo que não regressa e noites mal dormidas. Passo os dias em jogos, conversas, tantas delas banais, histórias que invento e reconto, discussões, acertos, negociações, assinaturas e burocracias. Continuo a perder tempo a cada instante. Se as lágrimas correm, é porque quando, de madrugada, puxo o lençol sobre a cabeça, reina o silêncio e, no silêncio, reinam as lágrimas. Reinam pensamentos que preferia não consolidar, reina o arrependimento. Agora eu sei, porque agora vejo, que foste um bebé de quatro anos abandonado. Que, tal como a Ana, precisavas de todo o carinho, toda a atenção, todo o amor que hoje vos dedico, mas que veio tarde e a más horas. Tal como ela, eu devia ter-te lido histórias. Mas, quando eu o David, cúmplices, tidos por tantos como gémeos, inseparáveis, eu com 9 anos e ele com 8, fazíamos do beliche um barco à deriva no mar, tu ficavas de fora, a afogar-te. Meu amor, eu queria tanto poder voltar atrás e puxar-te para bordo. É por isso que me castigo, eu mereço. Eu devia ter-te incluído nas nossas brincadeiras, ter-te feito cócegas, ter-te contado histórias, ter dançado contigo, ter inventado mundos e naufrágios contigo. Deviam ter sido brincadeiras a três. Mas tu, meu pequenino, meu amor, ficavas sentado a um canto, atento às nossas alegrias, à nossa cumplicidade impenetrável, provavelmente a desejar ser pirata ou marinheiro connosco. Estas lágrimas amargas, eu mereço-as. Mas elas também me estão a levar para o fundo. Eu não vejo costa, amor. Não vejo costa, agora afogamo-nos os dois. Agora estamos os dois a engolir água. Vejo e sinto sal em toda a parte, entra em mim, corrói-me por dentro. Devia ter-te salvo uma e outra vez nas brincadeiras, enquanto podíamos ter sido corda inquebrável, os três, e depois os quatro, e depois os cinco que somos agora. Nós somos cinco, e eu não me esqueço. É esse buraco, o número três em falta, que anda a assombrar-me. Não há noite em paz e não há dia que não seja uma fachada da primeira à última hora. Depois basta-me reparar na fotografia do teu cartão de identificação, enquanto como, para todo o peso do mundo me cair em cima e eu largar este mundo de hipocrisias e correr para fora, para o meu banco de teatro, deitar-me e ficar a ver as estrelas enquanto fito o céu. Tenho duas coisas a pedir a Deus, se é que ele existe: primeiro, dá-me saúde para que toda a cor que imagino para o nosso futuro venha por fim. Para que eu possa cumprir a minha promessa de te levar ao jardim zoológico, e depois a África, e agora esta de brincarmos aos piratas, eu serei o náufrago desta vez. A segunda é que, por favor, não escrevas a história pelo pior. Já chega, já chega de nuvens sobre o número três. No futuro distante, faz com que eu vá um segundo antes dele. Nunca ao contrário. Meu anjo, meu amor, meu futuro companheiro de aventuras.
22 Setembro 2010