16 de nov. de 2010

porquoi tu pleures?

lui l'a dit qu'elle ne devrait changer jamais. lui a dit que ses cheveux étaient uniques, personne les portait comme ça. il l'a dit qu'elle écoutait des chansons étranges, mais un jour quelqu'un les donnerait le valeur juste. il a parlé sur les matins, quand-elle avait un humeur térrible. Un jour, ça ferait quelqu'un rire au matin. Il a parlé sur leur idéologies, difficiles d'accepter, les utopies, les anarchies, la liberté. Personne la comprenait, personne le sentait du même mode. Les jours qu'elle a déclaré perdus, les chagrins, qu'elle a dit que ne finiraient pas, les films que l'a mis a sourrir ou a pleurer. Pour finir, il l'a dit: tu sais que, un jour, quelqu'un viendra pour t'apporter la joié. Quelqu'un saura, comme moi, qu'est qu'il faut pour te mettre a sourrir. quand ce jour arriver, tu ne sentiras pas ma faut. Et elle a pensé, justement, que si il savait tout ça, et n'avait pas veuille d'y rester, si il sentirait tout ça... et il ne l'aimait pas... qui, un jour, justement, qui l'aimerait?

5 Outubro 2010

I know someday www'ww wwww w wwwwwwwww wwww, we wwwwww. ww wwwwww wwwwwwww

ele está cá.
maior que nunca.
apenas mais disciplinado.

we wwwwww wwwwwwww.

 
(foto by claudia loureiro)
tururututururu.
4 Outubro 2010

1.10.10

«Falta dois minutos pra as três da manhã de dia 1 de Outubro de 2010. Corro os corredores do Hospital Garcia de Orta, estou junto ao bloco de partos, à espera, há oito horas. À uma da manhã registaram-se 24 horas desde que as águas da parturiente rebentaram. Mexo o chocolate quente como se fosse café de qualidade. A máquina não tinha açúcar, o primeiro café soube a veneno. Quero que o novo dia comece doce. Sinto as olheiras aprofundarem-se. A máquina de snacks comeu 2€ ao futuro pai da criança, que a esmurrou de irritação. Depois comeu mais 1€ à futura avó materna da criança, que se limitou a reclamar educadamente. Depois comeu mais 2€ a um segurança, que garantiu não ser a primeira vez. As informações são vagas, repetem-se expressões como "está atrasada", ou "não tem dilatação suficiente". Desfolhamos o album de fotografias que a minha mãe trouxe, com fotografias do pai do bebé, fazemos votos que se lhe assemelhe, no tom dourado do cabelo, no esverdeado dos olhos e no branco da pele. Desfolhamos a dezena de ecografias do bebé, dos tempos em que ele media 6mm de comprimento e tinha 6 semanas de existência e parecia um distinto grãozinho de feijão. Agora é tão grande que a mãe não consegue trazê-lo para fora. Está há mais de vinte e quatro horas sem dormir e hoje, certamente, não dormirá. É dia 1 do 10 de 2010. 1 do 10 do 10. Há uma menina de 4 anos, em tudo invulgar, que chama pai ao avô, irmã à mãe, e que namora com o actor da principal da novela da noite. Ressinto-me, falta-me cafeína, falta-me uma folha, falta-me caneta, falta-me um cigarro. Pergunto-me como é que me arrasto para esperas sem um bom livro, sem papel, guardanapo, caneta ou batom.Alguém se dirige à sala de espera e diz "Ela foi levada para o bloco da cesariana, ele já nasceu". O meu irmão ouve em silêncio, o rosto não se altera, e no final diz "Parto estes gajos todos se isso for verdade". Tinham-lhe prometido que ia assistir ao parto, mas é a mãe da parturiente que, há mais de duas horas, desapareceu com a filha pelo bloco de partos. Disse que, por dez minutos, sem medicação, a filha desesperou: chorou, desistiu de ter um dia uma menina, implorou para que acabasse depressa. Médicos e enfermeiros marcham em grupo. Falam novamente nas tais expressões. Dizem que o nosso Rodrigo não nasce antes das 8h da manhã. O amigo do meu irmão, a quem me juntei no pátio a fumar um cigarro, tirou um café da máquina, elogiou-lhe o aspecto, disse parecer um "bitoque" e rimos os três. O choro de um recém-nascido percorre o corredor, mas não é o nosso. Não é o Rodrigo, outrora com 6mm. Finalmente compreendo porque se perscruta cada pormenor de um recém-nascido. Quero que ele seja perfeito: nos pulmões, nas feições, no coraçãozinho do tamanho do seu punho fechado, quero contar-lhe cada dedinho e quero cheirar-lhe a nuca e quero ver-lhe os olhinhos, turvos, a arregalarem-se para o mundo. Ele parece adivinhar o mundo, sabe que está melhor lá dentro, agarra-se à mãe como espero que um dia se agarre à vida. O pai arrasta-se de banco em banco, com os olhos inchados de sono e de cansaço. Acordou às 6h da madrugada anterior. São três e um quarto, as horas não passam. Três pessoas precipitam-se para o secretariado das informações. Quase durmo perante o copo de plástico vazio do chocolate quente. Cruzamos os braços, olhamos para os sapatos, ansiamos pelo melhor. Já me habituei ao odor intenso do hospital, à sua luz macilenta, às vozes na televisão que, em espanhol, anunciam que o presidente do Equador foi liberto pelas forças armadas. A dois metros de mim, oiço a minha mãe remexer as moedas no bolso das calças à procura de trocos para o café. Quer um terceiro café. Relembro-lhe que a máquina não têm açúcar, sugiro-lhe o chocolate quente. Ela aprova-o instantaneamente. Depois, apercebo-me que a vida voltou a fazer sentido nesse instante: estamos no caminho certo, vai tudo correr bem, é que... inesperadamente, conseguiu que o 1 do 10 do 10 começasse doce também para ela.» 1.10.10 3h

O Rodrigo nasceu às 9h10, com três gerações de mulheres a fazer suposições sobre ele nos bancos da sala de espera. O pai estava lá, de mão dada com a mãe. De seguida contou que se refugiou num canto a sós com ele quando lho puseram nas mãos. Mal esconde a felicidade, diz que não vai voltar a submetê-la àquele sofrimento, são novos, queriam outros filhos mais tarde mas ele aceita poupá-la. Primeiro traço de maturidade. Ela diz que não quer mais filhos, que nunca mais acabava, mas consta que quando o recebeu nos braços o encheu de beijos. Cá fora, a bisavó materna, a tia e a avó paterna recebem a mãe da parturiente, que sai primeiro de lágrimas nos olhos e anuncia "já está". Crivamo-la de perguntas. Quando o pai sai, ora diz que ele tem mãos e pés grandes, ora diz que é minúsculo. Descreve-o "é branco, amarelo e azul: branco na pele, amarelo no cabelo e azul nos olhos". Diz que está exausto, vai para casa dormir, volta às 14h. Sentamo-nos mais duas horas na sala de espera e, finalmente às onze, pousamos a vista pela primeira vez nele. É perfeito, o meu principezinho. Tal e qual imaginámos.
Pouco depois da chegada ao Hospital
Última chance de nascer em Setembro
1º Minuto do 1.10.10
Freakin'out
Os olhos a fecharem-se

Ainda não
Lágrimas da avó materna e um "já está"
 
(todas as fotos by celia)
Principezinho

1 10 10

avenida liberdade - o sangue da cidade

Oiço palavras cantadas por alguém da minha margem sobre a capital do meu país. Desço a Rua de Santo António enquanto me deixo embalar. Reparo nas ruelas apertadas, nos diversos cheiros da cidade, pão quente, excrementos, verniz de mobiliário, urina, armazéns de revenda. Começo a ver, lá em baixo, a grande avenida que vai desembocar aos Restauradores. Por mim passam turistas perdidos, ciganos de ar melancólico, mendigos. Olho para o céu, azul povoado de núvens, e para as pedras, outrora livres, que agora pertencem à calçada. Penso na calçada tradicional portuguesa, no xisto e no calcário. Penso na nossa identidade. Penso nas vozes que oiço e atravesso a estrada a correr, agora lá em baixo. É então que ele diz que podemos imaginá-lo ali, na Avenida da sua Liberdade, e faz-me sentir não só no centro da cidade, mas no centro do mundo. Turistas à saída do metro dos Restauradores metem protector solar num bebé de meses que usa um chapéu branco. As pessoas que me ultrapassam por vezes cheiram mal, por vezes delas desprende-se um odor intenso a pele humana, a suor, a mendicidade, os bigodes brancos amarelecidos, o cabelo gorduroso sob um boné desbotado e as mãos grosseiras. Desvio-me da rota do ar que cortam à minha frente, ao caminhar. Passo por mais ciganos de peles morenas, saias compridas, aspecto deslocado. Passo por mais turistas, de chapéu, de rosto corado, que não sabem ao certo a onde dirigir o olhar. Oiço as palavras da música e penso que também eles podem considerar que sou dali, mas eu não sou de lá. Sob as galerias da principal avenida de Lisboa, a mais poluída, a que atinge temperaturas mais altas, a mais prestigiada, a Avenida das grandes marcas, dorme um sem-abrigo, e outro, e outro. Estão enegrecidos pela poluição da boulevard, estão escurecidos pelas altas temperaturas que, no inverno, não os tornam imunes ao frio. Já vi um homem morto sob os ulmeiros e outras árvores da Avenida, por entre memoriais e homenagens a mortos de guerras de outro século. E ele repete que não é de lá, e eu também não. Lisboa é sempre nova para mim, e o encanto é tão grande que desconfio ser este o meu recanto preferido num mundo de áreas infinitas e fronteiras infindáveis. Atravesso a estrada a correr entre a beleza do Avenida Palace, da estação do Rossio e do Teatro Nacional. Dou por mim no centro do Rossio, no centro da praça, sobre a calçada portuguesa, a ondular com ela, a saltitar, a voltar-me para trás para enquadrar o frontão do teatro, a saber que as fontes que me rodeiam são parisienses. Não sou daqui. Não sou daqui. Não sou de cá. Vou apanhar o barco para a minha margem, mas a magia de Lisboa conserva-se lá, eterna. E esta canção que oiço é o melhor hino à capital, não fosse ela assustadoramente realista.

29 Setembro 2010

a, b, c

- Ana, queres aprender a escrever o teu nome?
- Sim - tira-me o lápis da mão e pousa o bico na folha branca entre nós, arrasta-o ao longo da folha:

wwwwwwwwwwwwwwww

- O que é isso, Ana?
- É o meu nome.
- Não, não é. Dá cá o lápis.
- Olha, primeiro fazes uma bola grande, com uma perninha.
(A Cláudia pergunta-me se essa bola grande com a perninha é um A, digo-lhe que fique calada, é a maneira mais fácil, ela só tem 4 anos).
- Agora duas ondas, tuntun, e outra bolinha com a perninha.
Passo-lhe o lápis, ela desenha uma bola grande, um risco comprido, sem fim, e vários wwwww por ali a fora.
- Não, Ana - tiro-lhe o lápis - olha, uma bolinha grande e alta, com um escadote a vir lá de cima até à linha. A seguir, tuntun (desenho o "n") e,  por último, outra bolinha mais pequenina com um escadote mais pequenino a vir de cima para baixo, vês? A-n-a.
- Já sei, dá cá - pega no lápis e faz outro borrão.
Decepcionada, desisto. Sei que a paciência não foi muita. Quando a Cláudia lhe tira o lápis da mão, ela amua, quer aprender. Quer tanto aprender que, só por isso, já me parece que sabe. Já me parece que consegue escrever o seu nome, a minha princesa Ana.


 
(desenho by celia)

27 Setembro 2010

Bolo de Chocolate XX

O bolo de chocolate saiu delicioso, mas partiu-se ao desenformar. Vinha queimado por baixo e tive de lascar a camada preta. Os nervos já eram tantos, que o passei para o tupperware onde vai viajar e ele partiu-e mais um pouco, estalou. Enquanto o cobria com o creme de chocolate, via-o escorrer para o interior das falhas do bolo, ao invés de o cobrir a direito. Fui com a espátula mas era tarde de mais, metade do chocolate fora absorvido pelo bolo. Fechei-o no tupperware para não ter que olhar para ele. Disse à minha avó:
- Se esta fosse a minha casa, atirava o bolo contra a parede e ia fazer outro.
Ela tenta acalmar-me:
- Mas o bolo está mal, é o que interessa.
As lascas que foram tiradas para que o bolo coubesse no tupperware foram molhadas no repicipente onde fiz o creme de chocolante, e juntámo-nos todos a comer os pedacinhos pequeninos. Deixei-me cair num banco enquanto via a minha avó limpar a mesa e ouvi o meu pai dizer, de mãos nos bolsos:
- Já que eu é que tenho culpa de tudo nesta casa, diz que fui eu que o deixei queimar e o parti ao por para o tupperware. Diz que tiveste de sair e o deixaste entregue a nós.
Eu respondo:
- Quem o queimou foi o forno e quem o partiu fui eu. Espero nunca ter que me safar pondo as culpas nos outros.
E a minha avó acrescenta:
- Diz que fui eu então, vá. Fui eu que não o vigiei, e fui eu que o parti, forcei-o a entrar no tupperware.
Quando dou por mim, o bolo já não me parece tão mal, nem tão torto. Trouxe-me alguma luz interior, aquele bolo juntou-nos aos três na cozinha, num acontecimento memorável em que eu, derrotada, fui levantada por duas pessoas improváveis. Dei por mim a sorrir levemente.

Talvez este bolo que quase estraguei seja o melhor que já fiz.

(foto by celia)
24 Setembro 2010

soul mate

Sean: Do you have a soul mate?
Will: Define that.
(...)
Sean: Someone that challenges you.

- Good Will Hunting

24 Setembro 2010