16 de nov. de 2010

silêncio

Fujo, mas para onde? Pus-me a sonhar com uma casinha, pequena, velha e reconfortante, sem Internet e, quem sabe, com vista para o mar. Preciso dessa casinha. Imagino-me a escrever no seu interior, no lusco-fusco, no meu computador portátil. Finalmente apliquei o romantismo de escrever cartas, confissões, à tecnologia. Agora vejo cinzeiros ao lado de portáteis e canecas de chocolate quente ao lado dos escritores bloqueados ou em êxtase de criatividade. Provavelmente, ia alimentar-me de iogurtes, cereais e do chocolate quente - quanto menos loiça melhor, sou um animal de trazer pelo sofá. Sobretudo, ia alimentar-me das horas mortas, da inércia, do silêncio, do sofá e da paz absoluta e soberana. Há tantas respostas que me são vitais, agora... quem sabe trabalhasse, quem sabe conseguisse voltar a imprimir alguma qualidade aos meus trabalhos, agora que mergulhei perigosamente na mediocridade. Não, hoje não penso em morte como alívio ou solução mas, ainda assim, não resisto a perguntar-me: e se eu morresse hoje? E se eu escorregasse, nessa casinha à beira mar, devagar, inconscientemente, para essa tal paz absoluta, e se fosse como um braço a cingir-me, e se fosse como adormecer? Quem sentiria a minha falta? Quem se recordaria das minhas teimas, dos meus ideais, das minhas intolerâncias, dos meus parênteses e das minhas legendas? Teria a minha vida marcado a de alguém? Quem manteria em mente, e por quanto tempo, a fórmula exacta das minhas reacções? Quem me reconhecia nas minhas linhas e, sobretudo, quem me leria?
É isso, as aulas de História de Arte são ruído de fundo, um espectáculo de balbúrdia contida, subtil, mas gritante. Quase flutuo do meu lugar junto à janela, enquanto escrevo. Não estou aqui, não tenho estado por cá, não tenho estado em lado algum ultimamente que não na minha escrita. É isso, é lá que moro agora, a minha alma relocalizou-se e a correspondência está a custar a chegar-lhe do exterior. A minha alma suspira para que o meu corpo vá juntar-se-lhe, para que todas as minhas horas sejam silêncio, música e escrita. Geralmente, quando vivo mais, quando a vida, como onda, me toca mais, me enrola, vem desfazer-se em espuma a meus pés, escrevo mais. Antigamente, durante quatro anos, aquilo que chamei de "período fértil" durava de finais de Agosto a meados de Março. Não sei o que sucedeu este ano que só agora, a meio do Outono, acordei da minha hibernação de verão. Agora, acordei e quero escrever, escrever, escrever, todo o resto desvanece na névoa do ruído de fundo, como se o silêncio se fizesse só para mim.




hoje

fim de tarefa

Terminada a inserção dos textos do facebook, fiquei chocada com a quantidade deles no espaço de apenas um ano e, sobretudo, com o facto de reproduzirem fielmente não só os meus pensamentos, mas tudo aquilo que parte de mim dirigido às pessoas que amo. Se eu me calasse agora, as minhas irmãs, os meus amigos, já saberiam muito de mim. Talvez até o suficiente, e ficariam com belos retratos de si próprios pintados a tinta virtual.

aniversário da avó

há dois minutos atrás:

Cláudia: Célia, dia 26 calha a quê?
Eu: Ora bem... a avó faz anos dia 26, por isso é uma sexta.
Cláudia: Ai (deita as mãos à testa) tinha prometido a mim mesma que não me esquecia disso!
Eu: Já te esqueceste.
Cláudia: O que é que lhe havemos de dar? Já sei! Porque não uma placa? Mas é capaz de ser caro...
Rio e volto-me para a Ana: Estás a ouvir isto, Ana?
Ana: Estou, e já sei! Porque é que não lhe damos uns dentes que se pareçam com uma placa?
Eu: E porque não uma placa que se pareça com dentes?
Ana: É que se fossem dentes depois tínhamos que por cola na boca...

Ou seja: ela está preocupada com a durabilidade dos dentes que pretende oferecer à avó. O melhor é fazerem um desenho... meus amores.


há cinco horas atrás

insanidade total - dr. phil e os adolescentes

Há uns dias, a assistir pela primeira vez ao "Dr. Phil" (sim, que decadência), vi alguns dos comportamentos e reflexões dos pais sobre os filhos que mais me chocaram até hoje - e eu vou a reuniões de pais na Anselmo de Andrade!

Ora bem, o programa tinha o tema central "Risky teen behavior", e depois tínhamos coisas impensáveis como o "Jogo da Asfixia", no qual eles passam um braço pelo pescoço de outro e pressionam, para que ele desmaie e experimente as "maravilhas" de não ter o cérebro oxigenado, outro que, juntamente com os amigos, ia para parques temáticos com frequência, andava na montanha russa e aproveitava-se da força G gerada pela velocidade para conseguir desmaiar e diz que sentia uma espécie de "êxtase" ao despertar no final do passeio - diz que chegava a desmaiar 15 vezes por ida ao parque e que a mãe, ao repreendê-lo, não sabia o que estava a fazer. Depois havia outro, um rapaz de dezasseis anos que chumbou pela terceira vez o mesmo ano e a mãe, preocupada, resolveu escrever para o Dr. Phil: como professora de inglês no secundário, perguntava-se se o consumo que o filho faz de uma nova droga alucinogénica chamada "sávia", que alegamente mete as paredes a derreter e bichinhos a vir do tecto e a aterrar na sala, seria a causa do seu insucesso escolar. Ao longo do programa confessa que ela também fuma, ela é que o introduziu nisso, quer ser amiga dele, mais do que mãe, ela é que, inclusive, lhe vai comprar a droga, que o filho fuma como se fossem cigarros. Diz que não se sabe o suficiente da droga para ser perigosa e para proibir o filho, mas... será que está a afectar-lhe o cérebro em desenvolvimento? Por último, o Dr. Phil recebeu uns quantos e-mails de umas mães cujas filhas (entre 12 e 17 anos) praticam qualquer coisa agora apelidada de sexting, ou seja, enviam fotografias de si próprias nuas e em poses provocantes a amigos ou desconhecidos via telemóvel.


O choque, para mim, não foi nada do que está para trás, nem sequer a mãe que introduziu o filho na sávia e não sabia se era perigoso ou não, apesar de todas as recriminações do Dr. Phil, e da visível descrença do perigo no rosto dela. O choque foi o papel de TODOS os pais nestes comportamentos doentios dos filhos. Esta professora de inglês ia comprar a droga ao filho, dizia que tinha medo que ele fosse sozinho. Coloca-se a questão se sem comprador e sem dinheiro o filho estaria a chumbar pela terceira vez o mesmo ano escolar. A droga é tão forte que, em vídeos do youtube, se vê pessoas a dar uma primeira passa e a cairem para trás, ou completamente perdidas da noção de realidade.

Depois temos o filho que se faz desmaiar no parque temático, que diz com toda a arrogância que vai continuar e que a falta de oxigenação do seu cérebro, durante 5 ou 6 segundos, não terá consequências graves. A mãe, nervosamente, acaba por dizer ao Dr. Phil que não sabe o que fazer, e o médico pergunta-lhe: «deixe de lhe dar dinheiro para o parque temático!» ao que ela diz «mas eu não lhe dou dinheiro, ele vai comigo! o que é que eu hei de fazer com um rapaz da idade dele no Domingo à tarde?». Ao que, após o queixo do Dr. Phil cair, segue-se um debate sobre o facto de ser ELA a causa que possibilita que o filho pratique aquele comportamento impensável, o próprio médico diz: «então ele diz-lhe mesmo que, indo lá, continuará a praticar o mesmo comportamento, e a senhora dá-se ao trabalho de o proibir só para no Domingo a seguir o levar lá novamente consciente do que vai acontecer?».

Por último, e talvez o pior, foi uma mãe que ligou para lá em directo e que dizia:
«Descobri que a minha filha de 12 anos anda a enviar mensagens com fotografias dela nua a rapazes... não gostei nada daquele comportamento, e queria saber se o Dr. Phil acha que isto terá consequências para o futuro dela...?»
O Dr. Phil responde-lhe:
«Em primeiro lugar: quem é a mãe? Telemóveis, computadores e outras coisas afins não são bens de necessidade, são bens de conforto, são privilégios que, quando eles não cumprem com o que lhes é pedido, devem ser retirados. Depois, é evidente que esse comportamento terá consequências para o futuro dela: o que fica no cyberspace não desaparece assim, um dia ela pode estar à procura de emprego e essas fotografias aparecem por ter sido postadas na web, por exemplo. Agora, só lhe cabe a si tirar-lhe o telemóvel!»

Sinceramente, não acredito que nenhuma daquelas mães tenha corrigido o SEU comportamento, daí que o programa tenha sido uma fantochada de mães preocupadas que, na realidade, só queriam aprovação para deixar os filhos andar sem pesos na consciência. A coisa foi de tal proporção ridícula, que eu quis adoptar aqueles três adolescentes pirados para lhos devolver daí a um mês, com a mente já sã. Onde é que já se viu!!!! Uma miúda de 12 anos a enviar fotos nuas e a preocupação da mãe é se terá consequências para o futuro! Se fosse minha filha, além de só voltar a ter telemóvel aos 18, caiam-lhe uns quantos dentes durante o diálogo. Uma coisa é certa: da próxima vez pensava dez vezes antes de se despir.

PS - Ainda há aquela rapariga que envia 14 084 sms/DIA e o pai considera que é óptimo que a filha comunique, e que tenha tantos amigos. Estúpida é a mãe, que acha que aquilo é motivo para preocupação.

14 Novembro 2010

seize the day

 «É imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente, simplesmente porque a desejamos. Só é moral o desejo acompanhado da severa vontade de prover os meios da sua execução.»

A Rebelião das Massas, Ortega y Gasset, José


14 Novembro 2010

quilómetro 10

lamento que, para mim, a estrada vá bem mais avançada do que para ti, do que para vocês. lamento que ainda tenham que a percorrer, que evitar os obstáculos e que crescer. mas eu estou cá agora, vou tentar apontar-vos o caminho e, a cada vez que ele coincida com o que fiz, vou indicar-vos as poças, os precipícios, os sapos. lamento que só vão no quilómetro 10 d'uma auto-estrada cujo fim, é um último instante de ar.

13 Novembro 2010

nem deus, nem sal

não me resta grande coisa, apercebo-me. estou a morrer por dentro, é a verdade absoluta. resta-me o sal, resta-me lamentar. lamento sinceramente que estejamos todos a sofrer horrores em silêncio, e que todos o saibamos, e tenhamos até perdido a força de nos ajudar uns aos outros. nunca nos ajudámos uns aos outros, na realidade, só nos temos afundado, só nos temos empurrado para baixo. é noite, onde há uma praia suficientemente longa e longuínqua que abafe os meus gritos, que os impeça de chegarem ao outro lado do oceano? porque é que toda a gente à minha volta está a cair? porque é que toda a gente desistiu ao mesmo tempo? porque é que toda a gente enlouqueceu ao mesmo tempo? porque é que não vejo amanhã, nem salvação? porque é que não me consigo despir da dor, porque é que os problemas multiplicaram por mil enquanto as minhas mãos continuam a ser apenas duas? porque é que nos deixámos a todos sozinhos, porque é que o que tenho já não é suficiente, porque é que não chega, porque é que não há ajuda, solução, final feliz possível? porque é que continuamos a cair? porque é que o mundo é infinito, a solidão é infita, o sofrimento é infinito e este buraco onde caímos é infinito, quando chega o fim? por muito que doa, mesmo que ainda possa doer mais, mesmo que o meu corpo se fragmente em mil, se desfaça, se desmantele, vá cada pedaço numa direcção, porque é que o chão não chega? eu sei e o mundo sabe que os meus ombros já não chegam. eu sei e o mundo sabe que, em breve, fecho os olhos em queda livre e largo tudo, o que não me largou, o que ainda há para largar. porque é que toda a gente à minha volta está a sofrer, porquê? porque é que eu chegava para tanto e agora não chego para nada? porque é que não posso salvar-nos, salvar-me a mim? porque é que vamos todos ficar ainda pior, se há pior, porque é que não chega? porque é que tudo o que façamos não chega? porquê? porque é que não há luz sequer ao fundo dum túnel, porque é que a minha mão procura mas já não tem onde se agarrar? porque é que já não posso ajudar quem tem somente em mim a salvação? porque é que estamos todos destruídos, eu entre lágrimas e cigarros e gritos mudos, tu perante um copo de qualquer substância alcóolica, tu a lamentar a escolha que fizeste num instante e que te mudou a vida toda e a braços com os teus erros de quase criança, tu a refugiar-te no sono e tu, meu amor, sem compreender nada do que se passa ao teu redor, só a saber-te abandonado, e ainda tu, que não tens cérebro humano, que se calhar já nem estás nem mundo, porque nem de ti soubémos cuidar, igualmente abandonado, igualmente mal-amado? porque é que temos este défice de amor, de ser, de nos mexer? porque é que as minhas forças esgotaram, porque é que a minha cabeça já não pensa, a minha paciência já se esgotou, o sal escorre em mim? porque é que eu estou a gritar, porque é que eu estou a gritar tão alto, porque é que eu não sei para onde me virar, porque é que eu sei que, há minha volta, tantas outras pessoas que são, que se transformaram, no mundo para mim, estão igualmente a gritar alto, estão igualmente a enviar sinais, pedidos de socorro, a tactear no vazio, porque é que eu caio, eles caem, nos vemos a cair e, no entanto, o silêncio é infinito à nossa volta, o silêncio se nos prende aos ossos? um silêncio que dói, que urra, de tanto que ecoa.

11 Novembro 2010