26 de nov. de 2010

cabana sem amor

que escolha tenho eu? da última vez que me sentei sob um céu de estrelas, desejei que as coisas melhorassem em sentidos específicos. abriram-se janelas, mas fecharam-se inúmeras portas. hoje, enquanto seguia no comboio, dei comigo uma vez mais apática. estou a chegar à recta final, não é o final do curso (se chegar lá) que me assusta, não é ao curso que quero voltar. quero, no entanto, ter um plano bem traçado para o meu futuro. não posso arriscar-me a tomar a decisão errada num momento delicado destes - a minha vida já não me pertence só a mim, a perda é a perda, a despedida implica a distância e a perda, ou a ida sem volta implica a cisão completa. o plano que adoptar hoje, ao partir de viagem, pode alterar-se. o amor, como estrela cadente a guiar o meu caminho, como força vigente na minha vida, pode não ser o caminho certo, e a ambição, ou a simples realidade, podem vir e reclamar-me para si. nunca ambicionei palácios para morar ou carros topo de gama para conduzir, ou um homem alto - escritor, artista, médico - para exibir. ao invés, sempre desejei uma casinha confortável, com paredes pintadas por mim, um gira-discos, estantes de livros e lava-loiças, porque até em lavar um prato à mão há uma certa poesia, uma certa marca de solidão, a da pessoa que se entrega às lides domésticas. sempre desejei um carro velho, cheio de manhas, que me conhecesse e que eu conhecesse e que me fizesse rir - os bancos meio tortos, as portas meio perras, a direcção meio desajustada - porque nada disso me definiria, e eu seria feliz porque só isso seria um teste à perspicácia das pessoas que me conhecessem: quem me julgaria pela falta de máquina de lavar loiça, quem me julgaria pelo carro de inícios da década de 90? se me julgassem, eu saberia com quem estaria a lidar à partida - quem não julgasse, daria um passo para mais perto de mim. quanto ao homem, o que sempre imaginei seria alguém de quem eu me pudesse orgulhar - acima de tudo, orgulho, admiração, respeito - todo o resto é ornamental, ainda que os restantes não compreendessem que admiração era essa minha por ele, eu saberia e isso bastaria e bastará sempre. o país que eu sonho não existe. o carro que eu quero já não é fabricado. o homem que eu quero não me quer. e, com lisboa a passar por mim fora da janela, perguntei-me se é isto o melhor que o meu país tem a oferecer. será que tenho mesmo que me ir embora? aliás, o que concluí, foi que aqui não há nada. não irei embora em busca das luzes de paris ou da cultura francesa ou do bem que soa por-se na página do facebook: cidade - paris. se for, e hoje procurei, procurei, procurei, e não vi outra saída, é porque portugal é uma cabaninha pequenina - sim, é verdade, com uma sala de jantar com vista para o mar - mas é uma cabaninha pequenina em que as crianças, o futuro, não tem muito por onde crescer. estou a ver a minha licenciatura a aproximar-se do fim, descobri que não posso ser o que queria ser ontem - agora tenho responsabilidades, não posso ficar semanas fora a passear estrangeiros por portugal - e há a sombra da possibilidade de não conseguir passar no exame final perante o turismo de portugal para ser guia. não sei se teria estofo para passá-lo, e menos ainda se teria estofo para lidar com o meu falhanço se não passasse. e depois, que faço? vou sentar-me numa agência de viagens, ganhar 800€ por mês quando tinha contado com 1000 por semana e juntar dinheiro até aos trinta anos para ter o meu chão, o meu tecto, o meu gira-discos? às vezes apetece-me gritar-lhe: devias sentar-te aqui a planear o futuro comigo. depois lembro-me que não temos futuro juntos, que estou sozinha, que os meus amigos, e que bem os amo, precisam de começar a trabalhar na obra que serão os seus próprios futuros e que uma pessoa - ou bem que tem outra a seu lado que é inseparável e para sempre - ou tem que fazer por se bastar a si sozinha. é como se eu já estivesse com um pé no meu ideal do "amor e uma cabana", só que o amor está ausente e eu estou cansada de o esperar dentro da cabana suja, fria, com vista para um mar que só me traz melancolia, tristeza, saudade e frustrações. de que adianta ficar eternamente sentada num banco, à janela desta cabana, à espera que os meus desejos ganhem forma? que as mãos dele venham ter com as minhas? que me diga: há um plano c, que é este e é nosso e vai funcionar porque eu acredito, eu vou lutar, tu acreditas e tu também vais lutar por ele? e há o tempo a escorrer entre os meus dedos, em uma semana somo um ano aos vinte. se for para paris, em dois ou três anos sob o tecto da minha avó, sem despesas, junto o suficiente para dar uma boa entrada no meu tecto, aperfeiçoo o francês, traço um novo plano de vida, tiro um curso qualquer - quem sabe um mestrado se acabar realmente a faculdade - e volto não para a casa de partida, não para a casa 0, mas para a 2 ou a 3. e aí quem sabe, o meu futuro pudesse ser melhor. o futuro dos meus irmãos pudesse ser melhor. o nosso futuro, a existir um dia, pudesse ser melhor.

mas eu bem sei que a saudade iria matar-me aos poucos. ou irá. eu bem sei que a internet não dá abraços, nem reproduz bem vozes, bem sorrisos, nem covas no rosto, nem denuncia, se a pessoa o quiser esconder,  o estado de espírito do outro. também não equivale a estar-se presente num aniversário, num momento difícil, num evento importante. não sei que face deva dar, em que parte de mim devo deixar a pedra cair. na parte que ama, e sofre, ou na parte que está disposta a lutar por uma vida melhor, e que, em grande parte, está certa. a verdade, é que eu desejava que também isto fossem dramas, filmes, paranóias minhas. a verdade, é que em breve terei que tomar uma decisão, e vou descobrir se sou uma romântica ou se o meu coração é mesmo de pedra, como também há quem diga, e é capaz de arriscar tanto pelo melhor que a sociedade consagrou. arriscar tanto, não. arriscar tudo, suspeito.

25 de nov. de 2010

you never know how slow the moments go



So beautiful, so true.

The very thought of you
And I forget to do
Those little ordinary things
That everyone ought to do
I’m living in a kind of daydream
I’m happy as a queen
And foolish thought it may seem
To me that’s everything

The mere idea of you
The longing here for you
You never know how slow
The moments go
Till I’m near to you

I see your face in every flower
Your eyes in stars above
It’s just the thought of you,
The very thought of you, my love

23 de nov. de 2010

quem preferiria ficar fechado na gaiola a ver os outros pássaros voar?

o amor, como avalanche, como inundação, como sismo ou maremoto ou tufão... invade tudo, apropria-se de tudo, não tem limites, os contornos do silêncio são ténues, perde-se em voz, anseia por comunicar, por fazer-se saber. haveria amor tão belo assim, no silêncio, ou talvez na ignorância? haverá amor assim? solitário, perspicaz, observador, contido? não, tal coisa não existe. porque é que, em tanto tempo, ainda não aprendi? tal coisa não existe, repito. eu sei, tu sabes, sabemos todos. mas é o facto de saber que dava a minha vida por quem amo que me tolda o raciocínio, não posso querer que seja melhor do ninguém, que ame melhor do que os outros, por isso, não posso ser a única a dar a minha vida, como se fosse a minha vez numa fila de espera, por quem amo. não posso ser a única que mataria por quem amo. que caminharia, de pés descalços, no deserto, por quem amo. que mergulhava nas águas do ártico para trazer ao de cima quem amo, não posso ser a única, nem quero. o amor, como força incontrolável, derruba tudo, agora dizem-me que se pode controlar o amor? será possível? mas isso não seria um estádio de controlo do mais avançado que há, alguém conter-se ao ponto de não estender a mão para quem ama, de não lhe acariciar o rosto, não lhe tomar a mão, não o beijar, não... tudo o resto? e o que fica do amor jovial, do amor entusiasmado, do amor temerário e inconsequente neste quadro racional do amor? seria uma relação eterna, sem os altos e baixos dos impulsos? existirá alguém assim tão racional? e, existindo, este será o tipo de amor mais estranho que já vi ou... simplesmente... o mais admirável?

self professed... profond

For you I was a flame
Love is a losing game
Five story fire as you came
Love is a losing game

Why do I wish I never played
Oh, what a mess we made
And now the final frame
Love is a losing game

Played out by the band
Love is a losing hand
More than I could stand
Love is a losing hand

Self professed... profound
Till the chips were down
...know you're a gambling man
Love is a losing hand

Though I'm rather blind
Love is a fate resigned
Memories mar my mind
Love is a fate resigned

Over futile odds
And laughed at by the gods
And now the final frame
Love is a losing game

never ending force. I'm still speechless.

21 de nov. de 2010

the promise

What happened to us?
When did the world hit us?
When did we forget the basics of being?
When did we start to chose prudency over love?
When did we turned to other side of the road?
What happened to us?
How did all those promising flowers became dead leaves?
How did all that positive energy fell into a crisis?
How did all that beauty fade away?
How did all those moments flew away?
How did all that love got lost?
How did we let it happen?
What happened to us?
Was it life, knocking at our doors?
Was it wisdom, maturity?
Was it selfishness?
What happened to all that joy?
What happened to all that youth, all that blind faith?
Why did we have to grow up,
What did it have to be so different from what we were told?
Why do things diverge from what it was taught?




Two roads diverge on a wood and I...

I'll try to choose the one less likely to dry.

19 de nov. de 2010

dois restos de pessoa

o mar beijado pela luz dourada do sol de final de tarde - não a luz moribunda de quando o sol já toca a linha do oceano, mas a luz envolvente que precede esse momento. imaginem duas pessoas, um homem e uma mulher. não, tirem isso da cabeça - não andam de mãos dadas, inventaram qualquer coisa nova ao invés. não há mãos dadas nem o sol a tocar a linha do horizonte. imaginem que estão ambos descalços - é isso que partilham, os pés nus sobre o mesmo chão - isso e toda uma visão de vida. imaginem que ocasionalmente os seus ombros se tocam, ambos sorriem, ela de modo sonoro, ele discretamente. imaginem que por um fragmento de minuto, os seus indicadores se entrelaçam, apenas para se soltarem no momento seguinte - foi um afloramento, não há mãos dadas aqui. ela pula por entre as ondas, ele observa da areia. ela abre os braços - tem ilusões de poder voar - ele mantém os seus cruzados. imaginem que os pés dela raramente tocam o chão - ela flutua, saltita, quase levanta voo sobre a espuma das ondas - ele tem os pés firmemente enterrados na areia. imaginem que os lábios dela mal se tocam, pois ela exibe um sorriso constante, em contrapartida, raramente os lábios dele se apartam para sorrir, ele limita-se à subtileza de um curvar dos cantos da boca (no entanto, há luz nos seus olhos). imaginem que ambos já viveram muitas vidas, que esta é apenas outra, que a eternidade é um caminho a percorrer. agora esqueçam a praia, ou melhor, somem-lhe o regresso a casa: ele segue ao volante, ainda sério, ocasionalmente faz um comentário inteligente. não, não estão em acordo quanto à estação em que o rádio vai sintonizado. ela aborrece-se das notícias, tanta realidade a inundá-los através da voz do interluctor, prime o botão do rádio e percorre algumas das suas estações favoritas, depois diz "é isto mesmo", e recolhe as mãos no colo. depois é a vez dele fazer o mesmo, e da rádio ouve-se a voz do interluctor, bem colocada - "...contas públicas de 2011 para 3% do PIB nacional...". ela esboça um sorriso, mais discreto, não quer ser efusiva, a vida pulsa-lhe em cada centímetro de pele e tem que a reter em si, tem que evitar levantar voo a cada êxtase, cair por terra a cada desilusão. é só uma música, diz-se: para quê pular, abanar os pés, bater palmas? é um pequeno triunfo que dura poucos instantes - ele sabe que ela não espera outra coisa, que não que ele volte a mudar o rádio: na realidade, ela ama-o precisamente por cerrar as sobrancelhas enquanto ouve notícias sobre o orçamento de estado, e ele sabe que a ama precisamente porque luta afincadamente por se despir de todas as âncoras e de todos os cinzentos da realidade. assim continuram, amando-se ao mudar a estação de rádio, querendo ser si próprios mas, simultaneamente, sabendo que o outro não sabe ser sem si - como seria ele o homem sisudo a assistir atentamente ao desenrolar dos acontecimentos se ela não estivesse lá a testemunhá-lo? a guardá-lo na memória, a rescrevê-lo mais tarde, a recordá-lo? e seria ela uma eterna criança se ele não fosse o palco onde ela podia, finalmente, representar quem era? ele era como um leitor, o único espectador, de uma peça de teatro que era ela, de um quadro solitário num museu isolado e raramente visitado. imaginem o chegar a casa: ela ia dizer-lhe que queria um cão. ele ia dizer que ela já sabia que ele odiava cães. ela ia dizer que ele tinha que compreender o quão era importante para ela ter um cão. ele diria: "compreendo isso, mas também tens que compreender que eu não quero cães, não gosto de cães". e ela ia insistir, não que quisesse realmente um cão, na realidade até os achava trabalhosos, é só que queria descobrir se ele faria isso por ela: se conviveria com um cão por ela, se o faria para vê-la feliz. e ele, da sua parte, não podia ceder igualmente: era uma questão facilmente aplicável a problemas maiores - ela desistiria da sua ideia se a sua concretização implicasse a sua desaprovação? tinham que saber, ambos tinham que saber um do outro - ela acabaria por dizer que, na realidade, não queria cão algum, mas que já tinha comprado um piriquito sem lhe pedir autorização. haviam de rir, não que fosse digno de ficar registado em nenhum telejornal, reality show, telenovela ou romance de bolso. mas iam rir, tantas vezes, demasiadas vezes. às vezes ia parecer que a vida era leve demais, depois, descobriam uma ruga na testa do outro em momentos improváveis: "em que é que estás a pensar?" - "não viste o rapazinho descalço à porta do armazém?" "não, o que tem?", "nada, pus-me a pensar nas circunstâncias da vida, só isso". e ele ia ficar em silêncio: compreendia-a, sabia que as suas observações seriam um mero eco dos pensamentos dela, preferia o silêncio à condescendência quando esta implicava gastos de energia desnecessários - ele também sabia, que ela sabia, que ele sabia exactamente o que estava a pensar. num par - num grupo, numa expedição - cada um deve ocupar-se daquilo que sabe melhor: ele ocupava-se da realidade, ela do campo dos sentimentos. haveria sempre discussão ao domingo de manhã sobre quem detinha o monopólio do comando da aparelhagem. "chega de notícias de corococó", diria ela. ele diria "chega também dessa lamechice de músicas" - e, com a passagem do tempo, tanto as notícias de corococó como as músicas lamechas se diluiriam em ruído de fundo que tinha o efeito de fazer o outro feliz. agora imaginem que ele sempre quis morar no último andar de um prédio, com um terraço com vista sobre a urbe - imaginem que ela sempre quis um rés-do-chão com um quintal, onde pudesse plantar flores e descarregar nelas o que restava do amor que circulava nela e que não tinha escoamento possível d'outro modo. imaginem que moravam num terceiro andar de um prédio de sete, numa das colinas da cidade, e que tinham três vasos na varanda. imaginem que haveria um meio termo para tudo. imaginem só que era possível... 
imaginem duas pessoas sentadas lado a lado em cadeiras, num alpendre, ao cair da noite. imaginem que é uma daquelas noites ruidosas, em que os grilos formam uma orquestra e fazem serenatas à lua. imaginem que a lua é a protagonista de um céu azul profundo - imaginem que essas duas pessoas estão convictas que o amor que sentem pela outra é suficiente para abraçar dezenas de vezes a via láctea. imaginem que as estrelas cintilam como brilhantes sobre a protecção do alpendre, vêm-no através das vigas de carvalho. imaginem que têm uma velha laranjeira num pátio de gravilha que se sê do seu banco, no alpendre. imaginem que, depois de uma vida sem apreciar mãos dadas, têm frio nos dedos, as articulações já não são o que eram, as costas das mãos estão manchadas por sardas e manchas liláses e violáceas. imaginem que as canecas de chá deixaram de fumegar. imaginem que estas pessoas aquecem as mãos uma na outra, sem as dar realmente, que os seus olhares estão fixos no céu dessa noite de outono e que já perderam muitos daqueles com quem partilharam a vida. imaginem que os seus filhos cruzam os céus em aviões e telefonam ao fim-de-semana. imaginem que ela acabou de ouvir as notícias na rádio, sabe que vai chover amanhã. imaginem que ele se emocionou silenciosamente com a canção de louis armstrong que acabou de tocar. imaginem que, lá para o final, ela começou a cruzar os braços, como escudo, perante os males que a inundavam através da rádio - deixava-os vir até si, começou a interessar-se por eles, mas cruzava os braços para impedi-los de a perturbar demais. imaginem que ele começou a abrir os seus, sentia vertigens e agarrava-se à terra, às plantas da horta e do jardim que cultivavam, à laranjeira que plantara. imaginem que ela começou a olhar para as coisas em tom de contemplação, apreciava passear sobre pontes e distinguir peixes de tamanho invulgar a deslocar-se submersos, apreciava o seu sótão e a visão do quintal que tinha dali. e, por fim, imaginem que os grilos continuam a cantar, ambos têm um xaile sobre os ombros, na realidade, o mesmo xaile abraça-os a ambos. e depois, vindo lá de cima, como um manto de neblina, vem outro braço abraçá-los. não, não é deus, aqui não é deus. é o universo a por os olhos neles, o destino a vir recrutá-los. imaginem que é como um pequeno arrepio, uma picada de agulha, e que não chegam a olhar-se uma última vez (nem haveria necessidade disso, ambos têm uma ideia aproximada do número de rugas no rosto do outro). depois, imaginem que apoiam as cabeças na do outro, que os olhos ficam pesados e uma sensação de paz, de absoluta necessidade de descanso, vem e os toma desprevenidos. a consciência desliga-se em três segundos, uma sonolência sem explicação arrasta-os para algo desconhecido, mas sugestivamente confortável. e ficam-se assim, imaginem que acabaram ali. entre os restos de um dia - as chávenas, os xailes, a laranjeira por regar, a loiça na pia da cozinha, a água a aquecer ao lume para encher o saco térmico. o gato (nunca chegaram a acordo quanto ao cão) trancado com eles no exterior da casa. ficam assim, imaginem, nos restos dum dia, dois restos de pessoa.