“If you greatly desire something, have the guts to stake everything on obtaining it.” FRANCIS, Brendan
“Serendipity. Look for something, find something else, and realize that what you've found is more suited to your needs than what you thought you were looking for.” BLOCK, Lawrence
“The desire of the man is for the woman, but the desire of the woman is for the desire of the man.” STAEL, Madame de
“A woman's appetite is twice that of a man's; her sexual desire, four times; her intelligence, eight times” n/a
13 de jan. de 2011
12 de jan. de 2011
códigos de ternura
as noites mal dormidas. vocês de bochechas e óculos de sol. o primeiro dente, a primeira canequinha pintada, a primeira palavra. os vossos narizinhos, os vossos pezinhos gorduchinhos. a vossa mãozinha, com covinhas, a tocar no rosto de alguém, o vosso queixinho a projectar-se em gargalhadas, as vossas pestanas húmidas de lágrimas, a vossa carinha contorcida de incompreensão, os vossos cabelinhos pequenos, ralos, suaves como seda, encaracolados. o odor da vossa pele, tão característico, ainda assim, único. os estragos, os armários assaltados, as escadas com protecções, as roupas a deixar de servir, os sapatos a serem dados ainda novos, as vossas barriguinhas gordas, a planta do vosso pé, redonda, a dificultar-vos o equilíbrio. a minha mão na vossa durante os primeiros passos, a minha mão na vossa, até que comecem a enfrentar a vida por vocês mesmos. as birras sobre o deitar cedo, o dedinho no ar a anunciar a vossa idade, depois outro, depois outro, depois as palavras a porem para trás estes códigos de ternura. o móbil sobre o vosso berço, com animaizinhos a girar, de avião, a cavalo, peixinhos a pairar sobre a vossa cabecinha, ao alcance das vossas mãos, quando adormecerem. as rendinhas, as fraldinhas, os vossos nomes, meu deus, os vossos nomes, e o meu no meio, por entre os nomes dos amores da minha vida. a vossa letra, quando conseguirem assinar o vosso nome, os vossos desenhos de casas, quintas, vocês a assistirem a um filme, a colocarem perguntas difíceis, vocês a correrem pela casa, a arrastar copos com as toalhas, a molharem a casa de banho ao tomar banho, meus piratas, a traças com os dedos figuras nos espelhos embaciados, a dormir na vossa cadeirinha, no banco de trás, a esgueirar-se para a minha cama a meio da noite, ao meu colo, enquanto vos aponto a lua e as estrelas em noites de verão, ao meu colo enquanto adormecem, o meu indicador do comprimento do diâmetro da vossa mão preso nos vossos dedinhos. as fotografias sobre os móveis, nas paredes, nas portas do frigorífico. vocês sob a palma da minha mão, o rosto no meu ombro, enquanto danço algum clássico tarde na noite, para vos adormecer, vocês sentados na cadeirinha, a torturar a mesa de plástico com a colher enquanto a sopa não aquece, vocês a cuspi-la para a minha blusa quando faltam cinco minutos para sair de casa... vocês a querer mexer em tudo - no fogão, nos telemóveis, nos computadores, vocês a puxar o rabo ao cão ou a tentar sufocar o gato ou a tentar meter os dedinhos nalguma tomada. vocês, a gatinhar, a cabeça a pesar e a adormecerem de cansaço sobre o cobertor, vocês sentados no chão, a arrastarem-se pela fralda, a tentar seguir-me por todo o lado enquanto tento impôr alguma ordem no ambiente... vocês a recusarem-se a por o chapéu antes de ir à praia, a lavarem a mancha branca do protector das vossas barrigas na água do mar assim que lá chegarmos, vocês a pular sobre as ondas, vocês a cair, a esfolar os joelhos, a arranhar o nariz, a engolir água salgada, a querer queixar-se de alguém, de todos, do mundo, vocês, com o ranho a precisar de ser assoado, os rostinhos sujos de terra, de suor, os cabelos empapados colados à testa, as mãos peganhentas do lanche, abertas para mim, vocês, a tropeçar nos passos, a ficar mais irritados, e a gritar enquanto se aproximam, os meus olhos nos vossos, os vossos talvez iguais aos meus, os vossos dentinhos pequeninos num esgar de dor, de indignação, de injustiça, de sono... vocês de braços abertos a correr na minha direcção, e eu de braços abertos para vos receber. vocês a gritar... «mãe».
when I fall in love, it will be forever II
(para compreender, é favor ouvir a canção no final do texto)
estrelas e borboletas. as mãos ainda tremem, os joelhos ainda dobram. ainda disseco as memórias, os lapsos no tempo, o que deveria ter dito, o que deveria ter feito, como substâncias de felicidade que duram, e perduram, e que manipulo para poder sorrir, para poder sonhar, para suspirar, para me apoiar na ombreira da porta a imaginar. in a restless world like this is, love is ended before it's begun, and too many moonlight kisses, seem to cool in the warmth of the sun... a lua a pairar lá em cima, as sombras da natureza, das árvores, a sua quietude, flores por todo o lado, beleza em toda a parte, e eu como espectadora, e a textura das coisas, a textura dos dias, a fluidez das horas, a tua pele, meu amor, a tua pele, o calor que emana da tua pele... e os romances, empilhados a meu lado, na cama, os títulos, as expectativas, os copos de água vazios, as brisas, os golpes de ar que, quando desço de um transporte, quando abro uma porta, te trazem, em fragrância, até mim, como se a tua essência pairasse ao meu redor, constantemente, meu amor omnipresente. e o que faço realmente, sem ser pensar em ti? sem ser alimentar-me dessas lembranças, apoiar-me em ombreiras, manipular recordações e dedicar-te poemas? que tenho feito eu, desde que te conheci, sem ser flutuar, divagar, existir em sonhos, em planos, em momentos vãos, fugidios, que algures lá atrás consegui roubar à ordem rígida das coisas? que tenho eu feito, sem ser impregnar-me de ti, embebedar-me contigo, com a tua pele, meu amor, com o teu sorriso, quando tenho eu sido feliz, se não quando estou contigo? tenho eu vivido, pergunto-me... tenho eu caminhado, tenho eu tocado a terra com os pés, ao menos com os pés, tenho estado um bocadinho cá por baixo? não... não tenho, até os pés estão aí em cima, por entre borboletas, estrelas, algodão doce, maçãs do amor, vou cantar-te nesta feira, vou puxar-te pela mão até aos peluches, vou saltar, bater palmas, sorrir, e nada disso será suficiente mas, meu amor, a tua pele estará lá, o teu cheiro estará lá, algures dentro de ti, eternamente imperturbável, a tua alma estará lá, e a minha é mais quando está contigo, é mais quando te vê, quando existimos juntos. When I give my heart it will be completely... or I'll never give my heart... vou obrigar-te a dançar comigo, vou-te obrigar a levar-me ao circo, à ópera, a ballets e a planaltos, e a admirares a beleza de tudo comigo, mesmo que nem eu, nem tu, sejamos capazes de compreendê-la. Vou acordar-te com abraços e beijos, vou arrastar-me para a janela e vou admirar o que quer que seja que haja lá fora, vou agradecer às pedras, ao cascalho, às bétulas, o estares ali comigo. Não, não estou doida, mas a verdade é que... em pensamentos, temos sido muito um para o outro. Ontem por exemplo, levaste-me a dançar naquele rectângulo de sol, no Cais do Sodré, e eu cantava-te when I fall in love, it will be forever ao ouvido, e tu não te importavas, as minhas palavras não te doíam nem te incomodavam, continuavas a embalar-me. Rias, é claro que rias, como saberias ficar sério nessa situação? Gosto de rir contigo, gosto quando ris de mim, gosto quando rio de ti, gosto quando nos encontramos no meio, à nossa maneira, e nos desculpamos mutuamente. Não, não estou doida, foi em pensamentos, em sonhos, que isto aconteceu - mas aconteceu, e eu fui feliz. Uma vez, por exemplo, algures lá à frente (porque eu já desenhei todo um novo passado e um novo futuro), repreendeste-me por comer demasiados chocolates, abanaste negativamente a cabeça, chamaste-me de «maluca», e eu gosto, gosto quando me chamas de maluca mas continuas a meu lado: quer dizer que, sendo o que sou, continuas ali. A tua pele..., meu amor, tem-me atormentado nas horas mortas. Não é que eu queira, às vezes vou no barco e resgato uma memória nossa, embelezo-a, pulvilho-a com as tais borboletas, e sou feliz a reajustá-la, ao sol do final de tarde ou perante as luzes da cidade. Mas, tantas outras vezes, és tu que entras por mim a dentro, como se a minha porta estivesse aberta, ou tu tivesses a chave, e fossemos vizinhos, e viesses pedir açúcar ou ovos, e quero pedir-te delicadamente que saias, que feches a porta ao sair, e sei que depois volto a ficar vazia, fria, nua por dentro, sem ti que és toda a minha vida. Mas esses vapores coloridos, essa matéria dos sonhos de que és composto, circula em mim, como disse, sopra sobre os meus lençóis, os teus pés descalços, meu amor, deixam pegadas na poeira que sou eu, desde que não vivo, desde que encontrei refúgio na criatividade e liberdade infinitas dos sonhos contigo. Caminhas por mim, dormes em mim, sonhas com outra coisa que não comigo em mim, sais sem fechar as janelas, sem fechar as portas, deixas as pegadas, o teu fôlego sobre os lençóis que me cobrem, eu imóvel, eu como chão, paredes e tecto, eu muda, eu a recear que, se abrir a boca... te vás e não voltes. E és muito, muito mais do que um homem, do que um ser concreto aí, és somente uma brisa, sem rosto, uma luzinha, com contornos humanos, és simultaneamente vida e morte, és homem e és o meu entendimento como mulher, és humano e divino, és aprendiz e mestre, és metade sonho, metade invenção, metade realidade - és três metades, meu amor, a quarta metade é mistério, és quatro metades de quartos de ser, és tanto, mais que tantos. Meu amor, essa tua pele... esses teus pés descalços, a tua voz, o teu reflexo nos meus espelhos, e tu que não me vês, paredes que sou, tecto que sou, chão que pisas...
11 de jan. de 2011
when I fall in love, it will be forever
(marilyn monroe - when I fall in love)
não consigo explicar como uma música como esta viaja em mim, como se me visitasse, como se eu fosse uma casa de verão desabitada, poeirenta, cheia de lençóis brancos a cobrir-me. e ela chegasse como brisa, visitasse todas as minhas gavetas, passasse as pontas dos dedos nos meus lençóis enrugados, soprasse sobre eles, me agitasse, me devolvesse parte da vida, da vida que perdi when I fell in love...
For I knew this time, it could be forever...
10 de jan. de 2011
1755
Este vai ser o romance que vai demorar 10 anos a ser escrito. Tem que ser perfeito.
(Sé de Lisboa antes do terramoto)
- Estavam desorganizados, crânios ao lado de tíbias, ao lado de ossos longos, pensa-se que foram encontrados assim antes de ser sepultados; mais a fundo há sepulturas de monges que já viviam no convento antes de 1755; os restos mortais foram levados para ali, de fetos, velhos, grávidas, mistura anárquica. A seguir à catástrofe natural seguiu-se uma crise humana, dias de anarquia, de violência, de anomia e agnosticismo. O Duque de Lafões mandou enforcar 34 homens em poucos dias. Muitos fugiram de Lisboa, quem ficou enfrentou doença e fome. Armazéns foram destruídos, ao que se seguiu interrupção de abastecimentos devido ao fecho dos portos e fome generalizada que levou a actos impensáveis - um cão mordeu de tal modo a perna de uma criança que o osso demonstra o buraco do canino do bicho. Houve casos de canibalismo, com os ossos denunciando cortes de facas. Através da observação dos dentes, soube-se que os lisboetas de 700 tinham deficiências alimentares e falta de vitamina D – peixe, leite, carne. De 1099 dentes encontrados, só 179 apresentavam cáries, o que significa que apenas estes tinham dinheiro para açúcar. Os dentes estragavam-se devido à dureza dos alimentos. As dentições queimadas durante a catástrofe revelam temperaturas de mais de 1000 graus durante o fogo. Na sepultura havia botões ricos e outros mais pobres, dado de osso, um dente de javali (amuleto), colchetes, uma fivela, pedaços de cachimbos ingleses e holandeses, pedaços de tecido. A maioria destas vítimas são do Vale de Alcântara. Moedas de coloração alterada indicam que os proprietários estiveram em contacto com a água do Tejo – vítimas do tsunami;
- «Tal aconteceu a 1 de Novembro de 1755, dia de Todos-os-Santos, às 10 horas da manhã quando o povo estava quase todo reunido nas igrejas, e um incêndio devastador tornou a derrocada dos palácios e casas ainda mais horrível e muitos 1000 homens encontraram nas casa e nas pedras que caíam na sua sepultura. Os gemidos dos esmagados e o choro das crianças e dos desamparados era tão deplorável que não há pena que o consiga descrever, a maior parte dos edifícios públicos sofreu, o palácio real nº1, a alfândega 2 e a zona de barcos3. De acordo com um provérbio os Portugueses tinham por hábito dizer que Deus daria casa em Lisboa a quem Ele amasse. Entretanto Deus os avisou assim como a todos os homens, através do terramoto, do seu poder e força, que o reconhecessem e fizessem penitência e que levassem uma vida piedosa que Deus nos quererá dar a todos através da sua Graça.”
- O Terramoto de 1755 é considerado o maior dos sismos de que há notícia histórica (in “1755- O grande terramoto de Lisboa”, vol.I; FLAD, ed.Público, 2005). E foi sentido para lá de Lisboa : no Algarve, e depois no sul de Espanha e Marrocos, tal como nos Açores e na Madeira e por quase toda a Europa.
9 de jan. de 2011
vida nova
é um ano novo, logo, acho que tenho direito à minha vida nova. não me iludo, sei que é tão provável ir quanto ficar, mas sei que se for o meu futuro será melhor e que, se ficar, não saberei o que fazer nem por onde começar. quero tanto, mas tanto, essa vida nova. quero dar-lhe ordem de partida, quero fugir a estas paredes, a estas pessoas e a esta rotina. quero saber quem sou sozinha. quero que, num desses dias que pesquiso em sites de imobiliárias, marque realmente uma entrevista e, um dia, receba a chave na mão. quero tanto o meu espaço - as minhas paredes, o meu tecto, o meu chão, como o descrevo. entretanto, como uma overdose de mon chéris, deus, hoje é o nono que como. desconfio que, se houvessem mais, mais comeria. é disso tudo que preciso, preciso de estar no meu espaço sem receio que descubram um número ridículo de embrulhos de bombons debaixo da minha almofada. preciso de dispôr taças com bombons em todo o lado para, quando me apetecer, estender a mão e comer. preciso de uma cozinha minha, limpa por mim, onde as pessoas franzam a testa e arqueiem as sobrancelhas e digam: tu é que mantens (?) isto assim, limpo? enquanto escrevo descubro o que já sabia: estou a deixar de saber escrever a minha língua com precisão. falar é uma coisa, oiço as palavras no ouvido, ecoam-me na cabeça, mas e escrevê-las? paro constantemente a verificar ortografias, vou ao tradutor ver se a palavra existe em português. as línguas estão a destruir o que sei da minha, e não sou a única a queixar-se disto.
falava eu de uma vida nova... ainda hoje estava na paragem do metro e, como sempre, pus-me a imaginar que paisagens verei quando viajar, ao invés, nos transportes franceses. será que vou? pergunto-me, será que vou? quero tanto ir, mas levar tudo o que tenho aqui... amo demasiado estas pessoas, amo-as tanto que o encanto de Paris será vago perante o meu amor por elas. mas, de novo... o que farei eu aqui? pelo menos de momento, está fora de questão tentar ser guia, não tenho forças para uma batalha final. vou trabalhar para uma agência de viagens? um mestrado em Portugal está fora de questão, não aguentaria continuar a estudar neste contexto. talvez lá, sob o encanto da Torre Eiffel, consiga tirar um mestrado. talvez lá descubra o que quero da vida. entretanto imagino-me lá, imagino quem seria, imagino-me no seio da minha família negra, já lhes ouço as gargalhadas, já me vejo a falar francês com eles, não creio que demorasse muito a ambientar-me. já me vejo a viajar, a acompanhá-los nas viagens que sei que fazem, sobretudo ao luxemburgo e à bélgica. será que seria feliz lá? será que seria eu, lá? será que, lá, aprenderei a dar valor ao que desprezo aqui? será que aprenderei mais sobre o ser-se português nas terras da antiga Gália? será que encontrarei algum significado para a la marseillese? quero demais ser feliz. vejo-me a ler livros em francês, vejo-me a andar de bicicleta, vejo Paris a trazer-me para cima quando me sentir embaixo, enquanto este buraco luso em que me encontro só me puxa mais para baixo com perspectivas de cortes salariais a acontecerem a pessoas que convivem ombro a ombro comigo. este país está doido, quer afundar os cidadãos, e eu vou fugir antes que se lembre de mo proibir. não irei ao fundo com Portugal, irei ao fundo com saudades do seu sal. sal que sempre alimentou a minha vida. só que agora... quero uma nova.
3 de jan. de 2011
all the joy is fake
suddenly, all the joy is fake and all the rest is silent, unspeakable, unbearable. i can't take it, it's all that I can figure out right now. I've never let myself down this way before. suddenly am asking myself if I'm capable of reaching what I want, suddenly all my dreams are falling apart. and I'm not talking about love, for the first time, life it's all that's wrong. I can't keep myself from shaking, I can't pull myself away from the edge, I can't avoid the fall. all the joy is fake, everyone's miserable, all the rest is silent. I can't put my thoughts in order, laughters bother me, sadness has more to do with me right now. I'm letting people down, I'm leaving projects on the middle, I know I'm about to give up. I can't stand it, I can't go anywhere right now. I need to breathe, I need to make a restart. I have to leave. I can't finish what I've started, I can't make it right. I'm going down. maybe I can't see, 'cause everything's dark here, but maybe I've already hit the bottom. I'm tore apart.
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