Ela estava encostada ao móvel da cozinha, com o microondas a funcionar atrás de si e as costas quase apoiadas na porta. Ouvia a música que vinha das colunas, lá dentro. A música tinha um tom de trágico, combinava com os cabelos desgrenhados dele e com a sua t-shirt comprida, amarrotada, larga. Deixou-se estar, ambos os braços caídos ao lado do corpo, acordara há pouco tempo, sabia que estava com péssima cara. No corredor, entre o ruído do microondas e o das colunas, ouvia o pai gritar ao telefone com a mãe – conhecia-o o suficiente para saber que receava demais que ela lhe fugisse do alcance para lhe gritar, pelo que devia estar realmente irritado. Dizia «já não te lembras que íamos aí jantar? Se não estiveres lá às oito e um quarto bem podes fugir. Estás a rir? Não te rias! Comes em qualquer lugar? Mas e os miúdos?!». À sua frente, o irmão, mais alto que ela, mas também menos desenvolvido em termos mentais, apoia as palmas das mãos no tampo branco da mesa da cozinha e inclina-se para ela. Ela olha-lhe para os olhos, é onde encontra os resquícios do passado, um pouco mais normal. E ele pergunta-lhe: «eu meto-me com as pessoas? Meto-me? Meto-me com as pessoas? – diz o nome dela – Achas que me meto com as pessoas?». Ela permanece impassível, é melhor não responder, já anteriormente disse coisas que não devia, precisamente àquela pessoa, a única que não pode compreender nem mudar. O estado de loucura geral, no entanto, combina com a música, com o telefonema, com o rapaz das perguntas repetidas, insistentes, com o toque do microondas a anunciar que terminou o seu serviço, com o cabelo revolto dela e com a t-shirt larga, de um verde feio, velha, e ainda com as suas olheiras e o seu estado de espírito. Pergunta-se, antes de tudo se desfazer – antes de o telefone ser pousado, antes de o microondas cair em silêncio, antes de a música terminar, antes de o irmão lhe virar as costas e ir fazer a mesma perguntas a outras pessoas, que gritam no quintal no abrigo que é a infância – pergunta-se… como é que aconteceu esse acidente do destino, essa coisa improvável, essa ínfima possibilidade entre tantos outros cenários mais plausíveis, que é o ser considerada normal.
2 de abr. de 2011
22 de mar. de 2011
«eu sei»
esta noite sonhei que estávamos sentados num sofá, rodeados de gente. estava a combinar-se uma odisseia qualquer, e alguém ia dissertando sobre os perigos, mas eram obstáculos símbólicos, entendi pouco da conversa, era em ti que estava concentrada. estávamos separados por uma espécie de tela pousada contra as costas do sofá, pelo que tinha que espreitar por trás da tela para ouvir o que dizias. a dada altura, puseste-me a rir e desviei o olhar da tela para o grupo, composto por rostos turvos, desconhecidos, num contexto de supostos amigos. deixava a mão apoiada na tela, por dentro e a tua, ligeira, ia encostar-se nela. devo ter ficado tão comovida que fui procurar, com a minha mão, abrigo na tua. a tua recebeu-me, enquanto conversas paralelas se desenrolavam à volta. apertámos as mãos, entrelaçámos os dedos, passei os meus pela palma da tua mão, sorri por dentro. a dada altura fizeste-me sinal para que voltasse atrás da tela, para me dizeres qualquer coisa. não me lembro do que disseste, só sei que sorrias. e eu, séria, perguntei-me se tudo aquilo seria o prenúncio de outra queda e, receosa, senti os olhos encherem-se de lágrimas e apertei os lábios. não conseguia sorrir-te também, tinha tanto medo... e o teu olhar parecia aperceber-se de cada pensamento que me cruzava a mente, e tu continuavas a sorrir. e eu punha-me a repetir mentalmente, como se pudesses ouvir, mas não querendo dizer-to por palavras - «amo-te, amo-te, amo-te», e o teu sorriso suavizava. eu desviava novamente o rosto de trás da tela para o grupo, que mal via, e sentia que introduzias um papel por entre os meus dedos, presos na tua mão. quando o abria, com os dedos trémulos, lia somente duas palavras rabiscadas: «eu sei».
11 de mar. de 2011
b&f
Eu por entre folhas que esvoaçam, a minha letra gravada nelas. Abro o meu diário e encontro tudo o que fui, consigo que coincida com aquilo que sou. Tu inscrito em cada página, ou amarguras, ou notícias, ou marcos da vida que me tem passado por entre os dedos. A consciência do tempo esmaga-me. Ainda há tanto que quero ser, e tanto que quero ver… e há tanta beleza no mundo, e tanta expectativa e, se olharmos com atenção, está tudo a desmoronar-se, e nós sem consciência disso. Continuo a achar que o mais belo romance que alguma vez conhecerei é aquele que escrevo ocasionalmente, quando a desilusão ou a alegria momentânea, ilusória, me arrasta para as linhas que vou registando. Não consigo viver mais de altos e baixos, desconfio. Há qualquer coisa cá dentro que dói, e a dor é constante, receio que seja crónica. O problema maior é quando a minha imaginação, tão fértil como a região oeste deste país, encontra bloqueios, paredes negras. Crio ambientes na cabeça, crio vidas que não viverei para viver. Escrevi poesia, escrevi prosa, encontro-me em cada quadra, em cada parágrafo, e volto a sentir a esperança que sentia na altura, a dor que me atormentava na época. E compreendo que já aguentei muito, já fui feliz, e se mais estiver para vir? Não aguento mais altos e baixos, não sei viver de esperas, os sonhos estão a deixar de bastar. Estendi a mão e vi-os esfumarem-se, e eu sou de carne e osso, concreta, sólida, vivo de dedos, lábios, olhos e visão, vivo de rosto, que se enruga, se indigna, envelhece de hora a hora. Não estraguem a minha poesia, por favor, quando perder a escrita perco tudo, quando perder a beleza que me esforço tanto para encontrar debaixo das pedras dos destroços do mundo que piso, perderei tudo. É por isso que peço, destruam-me os sonhos, porque eu consigo renová-los, mas não destruam a beleza, uma vez esborratada, torna-se ferida aberta, torna-se recanto onde não quero voltar, sítio para esquecer, buraco onde me fui enterrar. Não me estragues a beleza, porque vivo dela, da simplicidade básica do belo e do feio, o feio é mau, o belo tenho-o feito bom. E a beleza é relativa, e eu consigo construí-la, mas o feio é tão absoluto, que nem eu consigo cobri-lo de ouro e chamá-lo bonito. Não pintes de feio aquelas ruas, por favor, são do mais belo que guardo em mim.
9 de mar. de 2011
8 de mar. de 2011
meios e fins
não consigo concebe-lo de outra maneira. tem que valer a pena morrer-se por. tem que ser possível fechar-se os olhos e deixar-se cair para tras com a certeza absoluta, sem sombra de dúvida, que o outro vai estender a mão para nos poupar à queda. apesar dos desejos de estabilidade, tem que ter uma pitada de poesia, de dramatismo, da fome desesperada de quem teme as desgraças, os finais, para ser intenso. tem que se ter medo de perder, diariamente, e ainda que esse medo nunca desvaneça, tem que se disfarçar, para que a vida do outro tenha paz, enquanto calamos os infernos do medo para nós, a cada despedida matinal, e ainda os ciúmes, enquanto perdoamos as pequenas faltas de atenção, as insensibilidades. tem que ter algo de suave, da suavidade dos irmãos e amigos, e algo de violento, de exigente, de insaciável, que obrigue a lutar-se sempre, a querer-se sempre, a desitir jamais. não acredito, não posso acreditar, que este tipo de amor aconteça mais do que uma vez na vida. este tipo de amor, acontece uma vez. o entendimento no silêncio dos olhares e na imobilidade dos lábios, o conforto no simples corpo que se senta, imóvel, a nosso lado, entretido a roer as unhas ou a acender um cigarro. e, apesar das diferenças de gostos, de abordagens, de reacções, apesar da permeabilidade à dor e às situações e à sensibilidade ao humor e à felicidade, é essencial que se tenha a mesma perspectiva da vida, que, não importa os inúmeros caminhos alternativos que escolham, saibam que o objectivo é o mesmo. não importa que oiçam a mesma canção. a meta deve ser uma e uma só, a mesma, para os dois - e isto é inato, não pode ser treinado. e é isto, e só isto, acredito, o que diferencia o que acontece uma vez na vida daquele que acontece ocasionalmente e que deixa um sabor amargo na boca no final. sim, porque para esses amores, há sempre final.
contigo, só quero estar em silêncio.
celos - gotan project
20 de fev. de 2011
end of story
«Pousou ansiosamente no colo uma mão-cheia de comprimidos, enquanto os seus olhos inexpressivos se fixavam algures na imensidão do mar ameaçado por uma tempestade que se aproximava. Estava sentada frente à janela panorâmica da sala com o oceano inteiro como espectáculo, mas demasiado perturbada para se inteirar do tecto de nuvens cinzentas que traziam as primeiras chuvas do ano. Segurava na mão transpirada os comprimidos, como se fosse uma pistola, ciente da inevitabilidade do passo que estava prestes a dar. Um lume acolhedor ardia na lareira. A sala espaçosa era um modelo de bom gosto, com os seus cinquenta metros quadrados cobertos por tapetes persas, a mobília clássica e muitos quadros a óleo, marinhas na sua maioria. Estava tudo em ordem. Em cima da mesa de jogo de pau-santo ficava uma última carta, escrita pelo seu punho, devidamente fechada num envelope. Tomou os comprimidos que tinha na mão suada e trémula, um a um, sem se apressar. Limpou com a manga do casaco de malha um círculo de água deixado pelo copo para que não manchasse a mesa. Levantou-se, acertou a cadeira pombalina com a mesa e foi deitar-se no sofá de quatro lugares mais perto da lareira. Tirou os sapatos e cruzou as pernas, esticadas do modo mais confortável possível. Adormeceu, caindo depois num coma profundo, a que se seguiu uma paragem cardíaca provocada pelo relaxamento dos músculos arteriais, levando-a a uma morte sem dor.»
tiago rebelo - uma questão de confiança
13 de fev. de 2011
recanto
tenho um certo orgulho quando me recordo que, aos doze anos, aos treze, aos catorze, ouvia dido incessantemente. ontem lembrei-me dessa antiga paixão, quase por acaso. engraçado que só desenvolvo grandes amores por coisas do passado, só me agarrei realmente a coisas que estavam lá atrás, quanto mais recente na minha vida é o assunto, menos apego lhe tenho. enfim, ainda hoje, ao ouvir dido, considero a música dela simultaneamente emotiva e madura. de algum modo, combina comigo - tantas são as canções dela que me dizem qualquer coisa... primeiro amor, e a thank you a obrigar-me a desfolhar dicionários de inglês-português para saber que raio dizia ela, que me soava tão bonito. segundo amor, e eu sentada no topo de uma colina, eu sozinha, a dançar onde ninguém me via, eu a cantar para os velhotes da aldeia, que não entendiam o que eu dizia, mas acabavam as cabeças em assentimento, e batiam palmas, e eu que cantava a my lover's gone. e eu, de novo no tipo da colina, onde ninguém me via, de frente para a beleza dos altos e baixos algarvios, de olhos fechados, com o vento a tocar-me delicadamente, com a vegetação a enrolar-se nas minhas pernas, na minha saia, e eu a sentir-me mais viva que nunca, e a passar horas, sob o sol dourado, melancólico, do pôr-do-sol, e a cantar a isobel, e a saber que haveria sempre de sentir falta de alguém que não me queria. mais tarde substituí aquelas ruas sob o céu estrelado, à noite, pelas canções da norah jones. lembro-me quando mo disseram, quando me contaram que ele também queria estar a meu lado, mas não lhe deixava. que raio, pensei eu na altura, para que é que ele precisa de autorização para ficar comigo? essa é a história que conto agora às minhas irmãs. a de como, numa linda aldeia, uma rapariga pequena e pobrezinha se apaixonou por um rapaz mais velho, que gostava de animais, mas tinha medo da mãe. agora, isso tudo já me fugiu. embora me pareça que vou sempre amar um bocadinho quem amei um dia, amo sobretudo aquele vento, aquelas faixas, aquele chão sob os meus pés descalços, quando tinha a certeza que a minha tia não me ia apanhar sem sapatos. amo tanto, os pastores a voltarem a casa ao final do dia, as ovelhas, estafadas, a subir a estrada, a contornarem ruínas de xisto e a entrarem na aldeia, encardidas, e a afastarem-se quando estendia a mão para elas. as tardes no pátio, aí sim, autorizadamente descalça, sentada numa cadeira de plástico, a ver quem passa, a gozar o sol, a ler, as centenas de páginas que li, li a cor púrpura, li o baunilha e chocolate, li o chocolate, e tantos outros livros que até hoje recordo melhor do que os que li ontem. às vezes, abria um dossier no colo e escrevia romances. sim, ainda me lembro dos nomes das personagens e do enredo, quando tinha 12 anos. maria eduarda e diogo, eram esses os nomes deles. foi o primeiro que escrevi, até hoje, o que me recordo melhor. lembro-me de achar a história do baunilha e chocolate parecida, já depois de ter terminado o meu, e de considerar que a modignani me tinha plagiado por telepatia. o cheiro a terra, a água da torneira pública, as pessoas a regar as hortas, as flores, o linguajar do interior, a televisão sintonizada os canais espanhois, de tão próxima que estava da fronteira. e eu, que era ainda mais romântica, mais idealista, mais determinada, mais sonhadora e mais ingénua do que sou agora... eu que, sem vergonha, sem contenções, sem receios, abria os braços e dançava à chuva no largo da aldeia até que alguém me fosse resgatar, ou que me equilibrava sobre a platibanda de um terraço, descalça, caminhando de um lado para o outro, e regressando, até que três pessoas, do pátio do café, me pedem que desça. pensando nisto, obrigada tia, por me teres levado tantas vezes contigo. obrigada, porque a cada vez que aquelas pessoas me diziam: - o que é que uma menin de 16 anos faz aqui? isto é só velhos!, eu pensava que devia ser boa pessoa, devia ser mesmo boa pessoa, se era verdade que as meninas de 16 anos desprezam os velhos. é que eu adorava qualquer pedrinha da calçada que cobrisse o chão daquela aldeia, qualquer grãozinho de pó. e os velhos, como os próprios diziam, eram rochas de sabedoria andante, que se sentavam ao meu lado e puxavam a minha mão para as suas. agora para terminar com uma musiquinha que me dá gosto às vezes ouvir, faço das palavras da dido as minhas, enquanto conto o final da história à minha irmã.
when you see her sweet smile baby,
don't think of me
when she lays in your warm arms
don't think of me.
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