20 de jun. de 2011

poucochinho

Hoje descobri, nesta palavra tão portuguesa, o «poucochinho», a razão dos défices humanos e sociais. Talvez seja demasiado ambicioso falar nestes termos - quem sou eu para descobrir o que quer que seja, eu, que nunca descobri nada que me dissesse somente respeito a mim, quanto mais aos outros animais e às outras casas. Parece-me, reformulando, parece-me, que o «poucochinho», é a razão de muitos males. Dos meus, seguramente, é. 

Há dias, descobri que a minha avó me tem «poucochinho» amor. Eu sabia que as barreiras sociais, culturais e religiosas iriam impor-se, como barreiras instransponíveis - ditando-lhe o que deve ser o amor, e não o que o amor é, porque o amor não é indígena domesticado nem cristianizado, mas selvagem nato, de cabelos ao vento e pouca roupa no corpo.

Atormentada com o filme que vi sobre a eutanásia, perguntei-me «e se fosse eu?». Ao contrário do grosso da população, que acha que os males nunca lhes podem ocorrer eu, dada a imginar, ponho-me a experimentar os papéis principais das tragédias e dos triunfos. E se, com esta consciência de que o tempo de que disponho é poucochinho, sofresse um acidente aos vinte e cinco anos e ficasse presa a uma cama, sem hipótese que fosse de decidir sobre a minha vida e a minha morte por não ter a) mãos com que fazê-lo, b) alguém que me amasse suficiente para o fazer por mim?

Oiço Ramón Sampedro dizer, sob a voz de Javier Bardem (Mar Adentro, 2010), que a pessoa que me amar é que me vai ajudar. Pois claro que é, não tocou nenhum sino na minha subconsciência. Eu sempre disse que amava como quem tira a vida a quem sofre mas serei amada do mesmo modo?

Esgueirei-me, descalça, até ao quarto da minha avó. Em momentos que suspeito que se fará história, na minha vida, que a partir daí não mais serei a mesma, não mais terei a consciência do tempo e do espaço que tenho, tomo especial atenção aos pormenores. Ela estava sozinha, no quarto dela, deitada sobre a cama feita, com a luz a incidir no quarto através das frestas da persiana. Deitei-me atrás dela, soube que, apesar de ter o rosto escondido sob o braço, estava consciente da minha presença. «O que foi?», diz, e eu, com receava que a voz se quebrasse, olhei para o espelho do guarda-fato dela, onde surgiam apenas as nossas pernas. As dela flectidas, em repouso, as minhas esticadas e nuas, em tensão sob o meu vestido favorito de andar por casa. «Se eu sofresse um acidente e ficasse sem me poder mexer» - há que simplificar, para quê dizer tetraplégica? Se quero a resposta que busco, tenho que colocar perguntas compreensíveis «e quisesse muito morrer, tinhas coragem de me ajudar?». «Não fales nessas coisas que deusnossosenhor castiga». Pronto, se deus entra na equação pela porta, sou obrigada (eu e a lógica) a sair pela janela. «Diz lá, se eu não pudesse mexer se não a cabeça, e falasse, e te pedisse para me ajudares a morrer, ajudavas ou não?». «Claro que não, estás parva?». Não me contive antes de me levantar do lado dela «Sabia que não me tinhas assim tanto amor».

Devia despi-lo, se o tem. Devia desnudá-lo de preconceitos e receios e normas - da própria consciência e sentido de certo e errado, se necessário. Devia deixá-lo ser aquilo que ele deve ser - ouro sem mão humana, incrustado em pedra aurífera, tosco, mas autêntico. Dias depois começo a lidar com as consequências da falta de paz que esta resposta suscitou. Sonho que tenho uma trombose, em casa. Ultimamente não me tenho sentido bem, há poucos meses o coração começou a falhar batidas e sinto-me cansada. Um cigarro é suficiente para a respiração se arrastar ruidosamente durante a noite. Claro que não é nenhuma doença grave - como de acordo com os princípios do romantismo (XIX) seria bonito que fosse - e não quero ser ingrata quanto ao tempo de que ainda posso dispor, (60, 70 anos, quem sabe) mas os males têm-se acumulando e há pessoas a sofrer males do género na minha idade. Vou tentar por as minhas tendências hipocondríacas de lado, de modo a sobrar só aquilo que me dói, e não o que penso que possa doer-me. Mas o certo, é que estou a morrer. O certo é que, batam neste texto os olhos que baterem, esses mesmos olhos estão a morrer. Estamos todos, e eu pergunto-me como acontecerá, e até decidi, há muito, que se puder, serei eu a escolher o momento, num futuro remoto, quando viver já não me atraia, já não pareça ter nada para oferecer-me. Isto para dizer que sonhei que tinha uma trombose e a boca distorcia-se dolorosamente - ainda o sinto, foi a noite passada que o sonhei - e, na minha cabeça, havia uma veia a latejar - e falava com dificuldade, enrolada, e mal mexia um dos braços, e dizia à minha avó que ligasse para as urgências. Ela dizia para eu parar com a brincadeira, e eu tomava o telefone e tentava falar, em esforço, e às tantas desmanchava-me em lágrimas, a pedir ajuda, e era aí que ela entendia e me tirava o telefone das mãos e falava por mim. Eu estendia-me sobre a mesa da cozinha, a cabeça no material fresco, deixava que mais lágrimas caissem e pedia ao destino para que, se fosse tarde demais para eu voltar a mexer-me bem, que me levasse. Por favor, leva-me, não aguento mais abstinências. Já me abstenho de amor, de saúde, de dinheiro, não me abstenham de fazer viagens de dois metros, da minha mão à vossa. E apagava-me. Não sei o que se seguia, porque o sonho apagou-se também. Os meus olhos fechavam-se devagar, uma sonolência calmante tomava-me, e o meu último pensamento era o de não querer acordar se o meu corpo tivesse morrido ao redor da minha alma. Não, aprisionada não. E assim acordei, aterrorizada, com a certeza de que, se me acontecer uma desgraça semelhante, bem posso definhar sem dignidade na cama, porque não há ninguém que me ame o suficiente para ma devolver. A essas pessoas, que achassem que o meu dever era ficar, saibam que, se tal me acontecer, a cada vez que pousar os olhos em vocês, se puder fazê-lo, estarei a implorar para partir, e a condenar-vos por não me amarem o suficiente. Quando chegar lá acima, o vosso deus, que para mim é a sabedoria final das coisas, há-de perguntar-me se serei capaz de perdoar-vos uma dor pior do que o que quer que fosse que me tivesse metido de cama. E eu direi que não, que não perdoo cobardias.

E, só para que saibam, àqueles que amo prometo ajuda no que quer que seja, a viver, ou a desviver, se viver se tiver tornado intolerável para vocês. O amor é uma coisa que se aprende, e eu tenho aprendido a amar melhor. Sem egoísmos. Deixar-te voar se queres ir, abrir-te os braços quando voltares. Deixar-te cair de joelhos, se insistes nesse caminho, e receber-te de braços cruzados e um sorriso de canto de lábios. Dar-te conselhos mas não imposições. Ficar feliz se os acatares, mas não me desiludir se optares pelos teus próprios avisos e chamamentos. Eu amar-vos-ia o suficiente para vos garantir alívio, e não considerem que vos amaria menos por isso, só porque seria capaz de vos mandar para um sítio onde não teria certezas se voltaríamos a estar juntos. Mas, para quem ama realmente, não é possível não estar juntos. Eu, pelo menos, vivo metade em mim e metade onde o outro está. Estares aqui significa, simplesmente, que todos os fragmentos da minha alma estão reunidos num mesmo espaço.

Não sei amar poucochinho.
Dá-nos jeito ter ao lado alguém disposto a trocar a sua liberdade pelo nosso alívio.
Menos do que isso, não poderei nunca aceitar.

6 de jun. de 2011

there's a degree of dificulty in dealing with me

«nunca sentiste que existem coisas que não consegues dizer? que a garganta seca? que as palavras ficam entaladas e não existe forma de as deitares cá para fora? tu nunca consegues encontrar as palavras adequadas para dizer que sentes falta de alguém, porque inventas maneiras de usar palavras que não as mais directas, as mais objectivas. tu pensas que se disseres as coisas de outra forma, que o que queres dizer, é entendido, pela outra pessoa, da mesma maneira que a tua. mas não. tu não sabes como é que hás-de dizer a uma pessoa que gostas dela, e isso toda a gente sabe que é difícil. as palavras são escolhidas ao pormenor, tentas escolher as mais meigas e dóceis, as mais carinhosas e queridas. até o tom de voz tu treinas, para não fazeres uma voz demasiado grossa e rápida, ou demasiado lenta e calma, ou então para a outra pessoa gostar. tu inventas gestos, o mexer das mãos, a posição do teu corpo...o corpo assente numa perna, o corpo assente na outra, a maneira como respiras, para transparecer que te manténs calma/o e serena/o. o teu olhar é testado, para que não olhes directamente para a luz do candeeiro (se existir um), ou para o chão, ou para as ervas, ou para o infinito. escolhes uma roupa e um penteado, porque não fica bem se estiveres ao natural (será que ele/ela gosta de mim assim? - pensas). mas tu, no fundo, sabes que não é assim. quando o momento chegar, não existe tempo para nada disso. quando for tempo das coisas se desenrolarem, tu deitas tudo cá para fora, o teu olhar voa a mil á hora por cantos impensáveis, a tua voz adquire tons mais altos e mais baixos, perdes a voz, - sentes o coração a bater a toda a velocidade - não pensas no penteado, nem na roupa, não pensas nos teus gestos, - e o coração acelera cada vez mais - e pensas e não pensas, e choras, e a maquilhagem desaparece, e o teu estômago fica solto, a pressão que se fazia sentir sobre ele, desaparece, sorris, não utilizas palavras escolhidas, palavras ternas ou caras, - o teu coração vai veloz - tu balanças o teu corpo para trás e para a frente, apoia-lo de qualquer forma e feitio, e quando dás por ti, estás a proferir as palavras que querias, as palavras que custavam a sair, as palavras que eram impossíveis, as palavras que não sabias se seriam ditas daquela maneira, com aquelas mesmas palavras. o teu corpo estremece. as palavras saem e são um eclipse - amo-te.»

29 Dez. 2008

(City and Colour - Little Hell)

5 de jun. de 2011

asas de cera

Da mesma forma que é sensato suprimirmos parte da nossa humanidade para que consigamos ser felizes mesmo quando, no restante mundo, se sofre atrozmente, parece-me vital, para que se consiga ser feliz, não desejar tudo. Eu sei que ficarmos a meio caminho pode traduzir-se em pouca ambição. No entanto, querermos tudo pode levar-nos a lado nenhum. Durante demasiado tempo desejei o ideal – é assim, é assim que o sonho, é assim que tem de ser. Ou então, nada. Vivi com o nada demasiado tempo, a mastigar o seu vazio, a fechar as mãos sobre ar, a pestanejar no escuro, ao fundo do meu nada, da minha ausência de luz. Agora, conforme cresço, conforme os dilemas da vida vão sendo outros, conforme o tudo, o perfeito, o ideal, se vai afastando, parece-me mais evidente que, para ser feliz – e é só isso que me importa, ser feliz, não no final da minha vida, mas todos os dias, e quero acreditar que todos os dias contribuo um pouco mais para que isso aconteça. Quero sorrir mais amanhã, sorrindo um pouco mais a cada dia. Não quero atrever-me a desejar demasiado alto, porque já caí umas quantas vezes – aliás, caí a cada vez que me esqueci que as minhas asas são de cera, como as de Ícaro. You think you have to want more than you need - society. Não quero voar mais com asas de cera e, se são as únicas que tenho, quero ser bem feliz cá em baixo, na troposfera. Toda a vida está aqui, de qualquer modo. A temperatura vai baixando conforme se afasta do núcleo da terra. E é tão verdade que poucos lá chegam, que poucos são glorificados por isso, que compreendo que seja uma meta a alcançar. No entanto, que felicidade pode trazer a camada mais fria da atmosfera, a mais alta simultaneamente? O calor está cá em baixo, é aqui o meu lugar. E não me adianta sonhar demasiado alto, porque podia trocar tudo isso pela meta final. Quanto às outras coisas, àquelas pelas quais vale a pena lutar… espero que a consciência geral (vulgarmente chamada de “deus”) se recorde de que eu fui crente. Eu acreditei tanto, que dei tudo de mim. Fui ridicularizada, por acreditar. Queimei as asas, ao acreditar, e nunca cheguei sequer perto do sol. É preciso que haja sinais, é preciso que me apresente por escrito o detalhe do itinerário que me sugere, e que me garanta que sobreviverei – que posso com o peso da mala e que não vou sofrer desilusões no final. É preciso que reconheça que eu não lhe virei as costas: eu fui mandada embora quando tudo o que queria era ficar. Por isso, agora é a consciência geral que tem que me vir buscar. Agora, não voltarei a fazer as malas e parto em viagem se a consciência geral não me garantir, por escrito, que há qualquer coisa para mim no final. Recorde-se, por favor, que eu não fico quieta por cobardia, porque a viagem não me assusta, são as horas sozinha que me aterrorizam, e nem sequer são as de ida, mas a de regresso, quando souber que afinal não devia ter ido, que afinal, não havia lá nada para mim. Espero ser uma lição de humildade, é só isso que ambiciono ser. Nem maior que ninguém, nem menor. Se conseguir servir de exemplo a qualquer coisa, se conseguir que se recordem de mim por qualquer coisa assertiva que disse nalgum momento… já é mais do que terei esperado. E para quê queimar as minhas preciosas asas por mais, se as coisas que realmente valem a pena não partem da grandiosidade, mas da despretensão? Quero um lugar ao sol – um lugar singelo, feito à minha medida, não mais, não menos, se possível. E não acho que precise de ser a primeira pessoa a contar do sol a receber a sua luz. É que as minhas asas… se ainda não o disse, são de cera.

22 de mai. de 2011

demented happiness

What is it with me and love? I watch this little love miracles happen all over the place around me. Truth be told, I don’t really connect to any of these love stories. They always seem a little empty for me. Is it because I still dream of prince charming? Will this mean that I’ll end up alone or in some unsalted story of these? I remember the character of Kate Winslet, in Revolutionary Road, turning to her husband, Leonardo DiCaprio, and says «you promised me we wouldn’t be like everyone else». I guess that’s what I need to be told. So far, everyone I met had nothing but the same old collective path through life to promise me. And, with the few ones I loved, even that path seemed interesting. Still, only for those few I happened to love. Now, I see love stories occurring everywhere around me, simple stories – of boy meets girl through social networks, at high school, at the university, at the camping trip – and I realize that all those stories happen as farther from me as they can. Even the ones closest to me seem to be prohibited to touch it, to reach it. People I love the most on earth have never tasted love. Me neither. I’ve lived it in dreams a million times, I’ve imagined everything I could have, but I never actually rested my lips on it. And then there’s this problem of mine – the fact that I can’t easily fall in love. This seems not to make sense, when I realize that the last time I fell in love it happened in a fragment of time, like a flash passing over three or four whole days – I looked better at him, I understood great part of him, I wanted to know everything else about him, I wanted to be with him for the rest of my life – and that hasn’t changed since then. Am I cursed? Is it the love I carry in me a curse or a blessing? A rare, hopeless and useless blessing? Will I be stuck in this moment forever? In this dreams of me and him, of the perfect team we’d be together? Of the great life we’d perform together? Of the intelligent, well stimulated children we’d have? Of the kisses I’ll never get to know? Why don’t I simply fall in love with the first person I find likable to fall for me to? Why don’t I search for momentary happiness instead of a life of overwhelming, transcendent, happiness? This last one is so hard to reach… and surely I can’t get there on my own. I just hope, sincerely hope, because I got to the point I should start to make those questions, if will I ever let it go, of this past of lovers bigger than my soul. I had two and they almost broke me down. And I also had a smaller one, simpler one – and this happened to want me too, but it was just too simple, not for the circumstances, but for us. It was a story of a boy meets girl on a vacation and both fall for each other. Too simple, too poor. And I used to dream of greatness and excellence in my life, at least when it comes to love. I write novels, I’ve read hudreds of them, I know I good story when I see one. And it wasn’t a good story – just a satisfying one, and satisfaction is not what I want from life. I know I’m too ambitious in this aspect, but I don’t want to wake up glad that he is on the pillow by my side. I want to wake up euphoric that he’s there, I want to be excited, radiant! I don’t want to smile – I want to laugh. I don’t want the kind of peaceful feeling that overtakes one when another loves him back – I want to be thankful for the rest of my life for that, I want my days to be all but peaceful, I want us to fight, each and every day, against that same peace, I want us to collide as much as we can, so our chests won’t be able to get even closer, and, slowly, we start to share the knowledge one of another. With this not meaning that we’d be the double of each other, but that we’d know each other so damn good, and we’d respect the hell out of the other, that no one else, in the entire world and galaxy, would ever be able to provide that nearness. That’s what I want, and it’s not my choice to find people interesting – I just happen to think that 99% of the humanity has absolutely nothing to give me, and nothing to do with me, and I don’t want to meet them, it would bring too much trouble. In this 1% I know, and in those 0,1% that I love, I’ve found a source of demented happiness for life. What can I do if I love like a madwoman? He deserved nothing less than that.

13 de mai. de 2011

6.5.11; 5:29

Às vezes (frequentemente, aliás), pergunto-me se a vida é só isto. Este marasmo, esta corrida lenta de caracóis, com os olhos postos em lebres, lá adiante. Cada um deve traçar o seu objectivo, se é que é claro para todos que se deve ter um, como me parece claro a mim. A ausência total desde objectivo de vida deve perfazer um estado de deslocamento total. Alguém que não acredite numa meta, num sentido de existência, vive do quê e para quê? Simplesmente não questiona o seu papel naquilo que apelido de «criação»? Talvez seja de facto assim, a lógica das coisas – vir porque não passamos da ninhada indesejada de uma gata, mas esta gata seria a humanidade. Viemos somente porque tínhamos que vir? Porque a gata, e o gato, não tinham como fugir à sua natureza? Viemos sem saber se teríamos lugar no mundo, se seriamos amados e adoptados, ou, talvez, afogados num balde no recanto mais discreto de um quintal? Quem sabe seja o mundo que nos afoga, dia a dia. A mim, é a falta de respostas que me afoga. Custa-me a crer que vim só por vir. Que toda a conjuntura matemática que se pôs de acordo para me ter aqui, significa absolutamente nada, que não uma simples equação complexa. Tanto eu, como todos os que por cá vagueamos, ganhámos uma luta pela existência e, desde aí, temos ganho constantemente a luta pela sobrevivência. Não sou, contudo, egocêntrica ao ponto de julgar que a minha existência é uma estrela luminosa por entre as outras, ou que o Homem, como espécie (e ultimamente tenho tido demasiadas referências ao facto de sermos, simplesmente, outro animal à face da terra, embora um que se impõe e reina sobre todos) – Animal, Cordato, Mamífero, Primata, Hominídeo, Sapiens – é o centro do universo ou criação estratégica de um organismo abstracto e místico a quem tantos chamam deus. Ocorre-me que, talvez, diferença maior do que a sermos inteligentes, perante os animais, o que realmente diferencia o homem de um cão é o seu objectivo de vida. Enquanto o cão tem uma certa percentagem de inteligência, ou capacidade para a desenvolver, duvido que a evolução algum dia lhe traga a capacidade de estabelecer objectivos, de pensar a longo prazo, de se contemplar como um ser temporal, com passado, presente e futuro. Com isto não querendo dizer que, alguém sem objectivos, seja uma vaca. No entanto, parece-me a mim que esta sociedade onde nos deslocamos está a afastar-nos a todos do nosso objectivo superior – não posso crer, de forma alguma, que a vida seja só isto – nascer, chuchar, experimentar andarilhos, ir para uma creche e fazer amigos, festejar aniversários, ir para a escola, tirar um curso superior, casar, ter filhos, ser avô, morrer. Não, o lado bom da vida não podem ser só recompensas financeiras, noites com os amigos à beira mar ou promoções na carreira e tardes nos centros comerciais. Assim como o lado mau não pode ser só dificuldades financeiras e problemas com o estar-se demasiado gordo/magro. Acredito piamente que haja algo de transversal à vida de TODO e QUALQUER ser da espécie – Animal, Cordato, Mamífero, Primata, Hominídeo, Sapiens – e com isto digo que algo de intemporal liga esta espécie, não só a memória evolutiva dos finais de tarde nas selvas ou da utilização do polegar ou da inutilidade dos sisos para rasgar carne crua ou da apêndice para ajudar a processar a alimentação dos tempos remotos. Não, algo menos instintivo e mais de ser, mais racional. Algo como a mesma alma em vários corpos ou um propósito comum – algo que faça sentido, simultaneamente, para um Homo Sapiens que acabou de aprender a lidar com o fogo e um Homo Sapiens Sapiens que acabou de tirar um curso de informática. Como que o mesmo disco rígido em cada, só que invisível, mas imutável, formatado a cada nova existência, mas com fragmentos da anterior.

Não posso crer que a vida seja só isto, ou que a minha vá ser só isto, sempre – noites solitárias, a juventude a esvair-se, a pele mais áspera, as rugas a aprofundarem-se ao redor dos olhos, as mãos a envelhecer, o corpo a decompor-se, lentamente, sim, acho que decompor-se é a palavra certa, porque a cada instante que vivemos ele envelhece e dá um novo passo em direcção ao seu destino final – a ausência de vida. E ainda hoje, na aula de Ética, alguém disse «fumar mata», ao que se respondeu, sabiamente «viver mata». E é por viver, matar, que a vida não pode ter o curso pouco prático de, no máximo dos máximos, 120 anos. Isso é pouco para uma espécie, é nada para a evolução, é zero em termos de aprendizagem existencial. O que é que fazemos cá, afinal, se não estamos programados para aprender nada se não a comer de talheres e a fazer login no facebook?

Por favor, por favor, consciência geral da humanidade, o «deus» dos religiosos, não deixes que a vida seja só isto. O meu objectivo de vida está bem traçado, soa simples mas é complexo demais, embora fácil de atingir – é ser feliz. Para isso, é preciso que eu sinta que a vida valha a pena por mais do que um contrato com uma empresa. Tem que haver um encontro com as entidades originais, uma aproximação à natureza, um banho de instinto e saber inato a guiar-me por entre os futuros dias deste meu corpo. No final, têm que haver respostas, ainda que eu passe a vida inteira a procurá-las no espaço físico, espero que, ao menos no vácuo, as encontre um dia. No entre vidas, embora queira, mais que tudo, que esta seja a última. Embora ache, sinceramente, que esta é a minha última. Não porque aprendi tudo o que o budismo e psiquiatras como Ian Stevenson pressupõem que se deve aprender – mas porque, como objectivo final, que faz sentido para mim e que talvez tenha criado, porque acredito também que o nosso papel é criar qualquer coisa, nem que sejam as nossas próprias vontades, fundamentadas, e verdades pessoais, que o objectivo final, não da minha vida, mas desta experiência como tartaruga num aquário chamado Terra, é desprender-me de tudo. Até porque o Homem, no instante em que começou a agarrar as coisas com as mãos, nunca mais as largou. Tornou tudo seu: as pedras para casas, as árvores para sombra, os solos para cereais, os animais para alimento, as estrelas para adoração e os metais para terem qualquer coisa que valorizar. Desde aí, transformou tudo, das comunidades fez civilizações e, entretanto, fala-se em sociedades. Tem sido tudo «nosso», entretanto, e a cada vida o Homem é incitado a reclamar para si parte do que se converteu em bem, ou em criar novos bens dignos de serem disputados e desejados – sejam ipods, sejam ilhas no Pacífico. Tudo deve ter o seu dono e, no final das contas, o Homem é o dono de tudo. Talvez o objectivo seja, realmente, esse – parar de procurar valor fora de nós próprios, mas cá dentro. No entanto, a cada geração, o mundo evolui num sentido que só nos faz olhar para o exterior, para aquilo dos arredores que possa interessar-nos e, daí, a exigir que nos seja atribuído aquilo que queremos – sob o estigma do bem-estar, da realização pessoal, dos objectivos de vida. A verdade, é que também eu jogo no euromilhões. No entanto, ser desprendido é saber que algo acima de todo este pandemónio tem mais valor. Não é ser como aquele que se queria intitular o homem mais desprendido do mundo, porque só tinha umas cuecas, das quais era inseparável e pelas quais enfrentaria incêndios para as conservar intactas, mas é ser como aquele que, vendo a sua mansão ser consumida pelas chamas, continua a sua meditação tranquilamente. E é isso, por entre labaredas, terramotos, histerismos sociais, os quais oiço, por vezes até concordo, mas acabam por não significar mais do que o que são – histerismos sociais – e por entre assassinatos, milhões a morrer à fome, má gestão, seja o que for que nos desabe em cima, eu continuo a meditar sobre que raio é isto que sou eu, e que raio que é isto que sou eu faz aqui. E, se tiver que escolher entre deixar o mp3 na estação, porque me caiu na correria para o comboio, ou esperar vinte minutos pelo próximo comboio, eu escolherei sempre o meu tempo, irreversível. E, por tudo isto, e porque não daria a vida por cuecas algumas, e até porque não há caixa de recordações que mantenha, e porque os meus computadores são, provavelmente, feitos de plástico, e as minhas roupas não passam de trapos, e os meus livros estão guardados na minha memória, embora sejam aquilo a que me apego mais – mas não totalmente – que digo que não me há nada essencial, se não o ar. Se não aquele que amo. E, libertando-me desse amor, liberto-me de tudo. E, liberta de tudo, sou só eu, desprendida. E, eu só, desprendida, creio que esta é a minha última vida, porque aprendi a lição do desprendimento, e aprendi-a nesta vida, é algo que não trouxe de trás, e de que me adiantaria voltar ao mundo, sem desejo de ligação? E, mais do que recear que houvesse mais algo por aprender, há a certeza de que, ao contrário de tantos a que a pergunta pudesse ser feita, partindo do princípio de que se acreditasse em várias vidas – queres voltar? -Eu diria que não. Não, não quero voltar, não me ocorre nada para fazer por cá, o que não me consagra perfeita, mas também não me parece que a perfeição fosse o objectivo; não acredito que o universo trace caminhos que não sejam exequíveis e que levem a metas inalcançáveis. E não receio a morte, nada disso me causa angústia, mas inspira-me paz, descanso, harmonia final. Desprendi-me, porque larguei mão da última coisa que se pode largar a mão: da vida. E, depois disso, não há motivo pelo qual voltar.

É por isso que quero tanto ser feliz nesta vida. É a última, por muito ridículo que soe, por muito neurótica que pareça, por muito esquisitóide que me consagre com este género de afirmação, é algo que me é tão natural sentir quanto respirar – parece-me tão certo quanto o facto de pensar, logo, existir.

6.5.11; 5:29

4 de mai. de 2011

texto 1

1 - Sociedade Contemporânea

Quais são os motores que movem os homens de hoje em dia? Há aspirações fáceis de identificar, quase comuns a todos: dinheiro, reconhecimento, estatuto, fama. Nem tão pouco especifico através de que meios se perseguem estas aspirações, mas somente que elas constituem o objectivo final. O Homem entrou, desde o início, num caminho criado por si mesmo e, desde aí, tem-no trilhado como único caminho – criou labirintos, cuja saída projectou e, ainda assim, acha-se um vencedor quando a alcança. Criou estradas a perder de vista para encurtar as distâncias e, desde aí, tem-se entretido a percorrê-las. Desenvolveram-se até, entre os homens, filósofos, pensadores, iluminados. Ainda assim procuraram organizar os homens dentro das estradas já abertas e caminhos já trilhados. “Distinguem-se, entre eles, mas não deles”. No fundo, a Humanidade é toda igual, mas em etapas evolutivas diferentes. Enquanto uns morrem à fome, hoje preferem morrer de fome a desenquadrar-se dos ideais estéticos. Outros, ainda, podem empanturrar-se até à obesidade. A Humanidade, essa, é toda igual dentro das restrições que criou: paredes, razão, cepticismo, ciência. Quando quem passa hoje fome vir suprimida essa necessidade, a seu tempo chegará às preocupações estéticas – absurdo, grotesco, é a coexistência destas duas realidades no mesmo espaço físico.
Os homens chegaram até hoje recostados no progresso que o futuro foi conquistando. Progresso científico, matemático, tecnológico, civilizacional – social, diz-se. O homem está farto de cultivar jardim atrás de jardim, passeia-se nesses jardins, inventou hierarquias dentro desses jardins e figuras místicas para justificarem a sua existência e, nesse jardim, ignora-se a si acima de tudo. Há um conto oriental que diz que os deuses tiveram de esconder a Natureza divina do Homem perante o próprio. Não a enterraram, porque adivinharam que, nas suas buscas, não ficaria pedra sobre pedra. Não a esconderam no mar, porque também aí eles haviam de a procurar. De facto, o Homem tentou justificá-la como sendo o centro do universo, o que não é, ou criação suprema de uma divindade única (será?). Então, ironicamente, esconderam a divindade humana no interior do próprio Homem, onde tiveram a certeza de que este não a iria procurar.
A civilização moderna, global, mas especialmente ocidental, prega os valores da colectividade, mas desenvolve-se sob o signo do individualismo e da competição, do isolamento e do orgulho e próprio e realização pessoal. A busca da glória, honra, enriquecimento, é o discurso do Hitler para os alemães, do Bush para os americanos e do Fidel aos cubanos. O Homem quer ficar para a posterioridade – a bem ou a mal, desde que seja recordado. Outra história curiosa sobre o próprio homem, sugere que o mesmo terá previsto a sua própria auto-destruição, às suas próprias mãos e que, assim, terá criado mecanismos que lhe assegurassem um regresso à vida e uma reconquista das dimensões espaciais e temporais. Assim, este pode não ser um primeiro ciclo – uma primeira, única e contínua vida da civilização.
A sociedade actual afasta o Homem da sua Natureza, empurra-o para valores efémeros e supérfluos, e os filósofos sabem que, quanto mais o Homem se afasta da Natureza, menos puro se torna, e mais susceptível fica de ser corrompido pela vaidade, a ostentação e o ócio. A sociedade sussurra-lhe «olha ao teu redor, conquista como os grandes”. A Natureza diz-lhe “olha para dentro de ti e para ti, tão pequeno, tão nada neste universo infinito, e descobre-te nele” – fora de limites espirituais, é evidente.

2009

2 de mai. de 2011

insomnia

I would kiss you
On your knees, on your elbows, on your ankles
I would lie on your back
Our hands and legs tangled
Our body heats like the balanced temperature of the same planet
My belly would rest on your thighs
As I’d hold you tight
And I would kiss you behind the ears,
On the softer spot of your skin
And I’d trace roads of warmth between your shoulder blades
The tip of my nose would caress your front
I would rush my lips through your neck,
And be caught at the curve of your shoulder
I would be acquainted to the flavors of your skin
Is it salty on your forearm?
Is it sweeter on your wrist?
Sweaty on your palm?
Let me see how much of my tongue
Fits onto your clavicle
I would draw the very relief of you
With the tip of my fingers
I would kiss your hips,
The corner of your lips,
The high top of your eyebrows
And I’d do it all out of love
But imagine, my love, just imagine
What would I do…
If passion took me over.
Just imagine if…

Portishead - Roads