25 de jul. de 2011

eis a questão

uma vez vi num episódio qualquer tolo de uma série, uma mulher a pedir ao homem uma prova de que estava apaixonado por ela. e ele responde-lhe que as mãos dele começam a suar descontroladamente quando está perto dela. ela responde-lhe que isso pode acontecer-lhe perto de muitas outras mulheres, e aconselha-o a testá-lo; a seduzir uma mulher, a estar com essa outra mulher e a descobrir se as palmas das mãos começam a suar ou não. depois de muito discutir, ele acaba por aceitar o teste. enquanto beija a outra mulher, vai mexendo as mãos, abrindo-as e fechando-as e, no final, sorri: tem-nas secas.

se é verdade que esse é um dos sintomas do «estar-se apaixonado»... bom, eu já sabia que estava mas as minhas mãos não costumavam suar. ultimamente, não param de fazê-lo, basta-me saber que ele está por perto. bom era que as dele suassem também.

20 de jul. de 2011

adeus, até já


«Durante anos sofri com o teu hábito de partir sem te despedir. Até que entendi que isso era apenas a tua certeza de que ias voltar.»
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Cee, me and tea

18 de jul. de 2011

eixo existencial

Errante? Não me perdi no mundo, à tua procura. Por algum motivo, vim dar a esta costa, e eras lá marinheiro. Já te encontrei. E agora? Tantos poetas lançam rimas, como mantos de pérolas, para alimentar as minhas necessidades de ser. Arte que me advém, porque eras marinheiro neste porto onde vim aportar. Não planeei deixar para trás os sonhos de vidas paralelas. Se foi fado, decidi-me por uma que me está vedada. Alguns nascem para percorrer a estrada que lhes apraz, outros para caminharem numa paralela, dedicando olhares furtivos à que lhes escapou. Tortura, os teus lábios. Enlouqueço, é verdade. Aos poucos. Ainda que o negue, ainda que os chame tolos, é a pura verdade. Enlouqueço como enlouquecem todos aqueles que, à noite, julgam deitar-se com outro corpo a seu lado mas que, na realidade, estão sozinhos. Enlouqueço, porque de mim jorram poemas, jorraram lágrimas, jorram beijos que nunca tocaram a tua boca. Amaldiçoo a minha imaginação. Se ao menos não nos tivesse já visto juntos… mas vi, e era um quadro por demais belo. Por demais digno de exposição. Devíamos acontecer, eu e tu. Para que eu pudesse seguir pela vida fora, a honrar esses teus lábios, a abraçar essa tua pele, a acordar envolta no teu cheiro. Desejo, maldito desejo, que massacras as águas calmas e obrigas os navios a velejar. Só quero ficar assim, quieta, sem que ninguém me venha agitar. Sem que me recordem que sou peixe, mas que quero viver no ar. Beija-me, é uma súplica. Deixa-me enterrar os dedos na tua nuca. Deixa-me puxar-te para mim, como se tivesse o direito de deslocar o eixo do teu corpo. Deixa-me pressionar o peito no teu, estender-me ao longo do teu corpo, nas pontas dos pés, até emoldurar o teu queixo com os meus lábios. Deixa-me saborear o teu sorriso, sorri enquanto te beijo. Deixa-me sentir o teu calor, provar a textura da tua pele, deixa-me desenhar o relevo do teu corpo com a ponta dos dedos. Deixa-me olhar para ti tempo suficiente para gravar, na memória, cada um dos sinais que te dançam na tez. As covinhas no teu rosto… Tu é que deslocas o eixo da minha existência. Como constelações na minha memória, o firmamento dos teus sinais, a tonalidade exacta da tua existência. Deixa-me... Tu sabes. Deixa-me... eixa-me... eija-me... B.

6 de jul. de 2011

me-decifra

Amadeo Modigliani's Female Nude
Uma vida de solidão doméstica. Noite dentro. Vida adentro. Por vezes, por entre o deambular nos corredores, descalça, de camisa de dormir, ocorre-me que os meus ossos podiam transportar não vinte e um anos de memórias, mas o dobro. Às vezes, quando franzo a testa, penso que as rugas podiam não ser de expressão, mas de preocupação, por questões práticas. Ópera algures, numas colunas não muito distantes. Olezzo di verbena. Perfume de verbena. Pele. Sulla tua bocca lo dirò. Sobre a tua boca di-lo-ei. Encontro. Um cigarro aceso na noite. Círculos de fumo branco. Boca. Dedos entrelaçados. Alguém que pense nas questões da vida por mim, enquanto eu escrevo novelas ou romances. Enquanto eu olho para os sonhos, alguém que olhe para a vida, para as nossas vidas. Solidão doméstica. Leite no frigorífico. Violinos. Cordas. Sopro. Portishead. Roads. A planta do pé sob a laje fria. Deambular. O cabelo enredado, poesia à espera de ser lida, demasiados livros na estante. Corpo. Sonhos, desejos, expectativas. Desejo. Não desejos, desejo. A humidade da pele no verão. Deslizar. Suor. Amor. Querer. Lusco-fusco. Um corpo estendido, em repouso. Cascata. Precipício. Cume. Suspiros. Outro corpo estendido sobre esse. Dança em mim. Imaginação. Fumaça. Lábios. Mundo. Mãos. Beijo. Desejo, amor. mãos minhas as com amor Faz. et-omA.

sonho

hoje pode realizar-se um sonho meu. ou pode vir tudo por aí abaixo, areia filtrada por entre os dedos. vou tentar agarrá-la, e ver se sobra qualquer coisa. se vencer esta batalha, se passar esta prova, os meus castelos de areia ganham fundações.
e eu sou consagrada uma sonhadora realizada.

figas. wish me luck.

28 de jun. de 2011

desperdício

a vida exige que se espere pelo que há de melhor. porquê? porque é que não podemos ser felizes desde o primeiro dia? porque é que a juventude não passa de um estádio curto, desvairado, e com um fim rápido e eminente? porque é que temos que esperar por qualquer coisa mais além, para começarmos a colher frutos? para sermos felizes? para nos sentirmos realizados? porque é que tudo requer tanto esforço? porque é que as pessoas se desperdiçam mutuamente, no presente, para irem encontrar-se lá à frente se, aos vinte anos, faz-se amor três vezes por noite e, aos cinquenta, já é difícil fazê-lo três vezes por semana? porque é que tudo o que é bom está lá à frente, guardado? e porque é que as recompensas só chegam tão tarde... porque é que aspiramos a ser qualquer coisa, e não nos limitamos a sê-la momentaneamente? porque é que alguém tem que experienciar tudo o que há a experienciar, não experienciando nada na realidade, quando podia prender-se a qualquer coisa e elevá-la ao grau de sublime? porque é que coisas superficiais, coisas sobre as quais não há três linhas de pensamento coeso a dizer-se, constituem os degraus que nos levam lá acima? e porque é que, lá em cima, há um patamar pequeno sobre o qual não podemos caminhar muito tempo; ou seja, porque é que a luta dura mais do que a comemoração da vitória? e porque é que a felicidade é um estado temporário, e não véu de seda e envolver-nos constantemente? porque é que, com o tempo, perdemos a voz? porque é que o medo, tantas vezes, é o determinante do nosso caminho? porque é que se acumulam, cada vez mais, momentos no passado aos quais não podemos regressar - traumas, perdas, receios, palavras atiradas ao vento, chegas para lá, desperdício. vida, porque é que há tanto desperdício?

23 de jun. de 2011

vi-vi-mmvii

talvez eu só tenha que me libertar de uma coisa: a minha teimosia.
e daí por diante siga, feliz, numa vida nova e sem amarras.

(a partir do momento em que te perguntas se ainda gostas de alguém, já deixaste de gostar dessa pessoa para sempre).