16 de nov. de 2010

this life could be the last

esta vontade de me ir daqui persegue-me, não é de hoje. não foi telha que me deu, é parede de pedra em mim. quero ir-me daqui, mas as âncoras são mais que muitas. há pouco a andreia falou-me que um dos seus sonhos seria ir morar na américa - thanks giving day, subúrbios, cultura americana. pus-me logo a imaginar um dia de acção de graças na américa, com elas a chegarem, a trazerem doces, a rirem enquanto eu sujava metade da mesa com pedaços de perú. depois a imagem cai por terra: não haveria tal coisa. não posso por as pessoas que me importam numa mala e levá-las comigo, ainda que só assim a minha vida fizesse algum sentido. se não estivessem lá, para mim não haveria subúrbios nem cultura americana, mas tardes perto do telefone e updates de programas como o skype para poder ver os rostos delas e ouvir as suas vozes diariamente, e a cada dia ia querer voltar para aqui, ainda que isto, este buraco, não seja nada. é um buraco somente porque, a cada ano que um ser se fixa no mesmo lugar, na minha opinião, ganha raízes, afunda-se mais. porque é que tem que existir a terra deste e a terra do outro? não pode ser a terra de todos? como cidadã do mundo, do planeta terra, serei carimbada de imigrante noutro país, assim como por vezes, inconscientemente, carimbo de imigrantes os de cá? será o meu país como a minha casa, e ponho esmero na escolha dos convidados? serei bem recebidas nas casas de outros? a minha mãe diz que vai, diz que no início do próximo ano pega nas malas e vai morar para a sombra da obra do Eiffel. Perguntei à minha irmã se quer ir com ela, ela disse no mesmo instante que sim, e reconheci nela o mesmo despreendimento fingido que tenho. perguntei-lhe, num acesso de carência que nunca antes lhe tinha mostrado, se tinha coragem de ir sem mim, sem a ana. ela reaforçou que sim. quis repreendê-la, dizer-lhe que é uma egoísta, que não se importa connosco, que, aos dez anos, já é uma calculista. depois percebi que fui eu que lhe ensinei isso, fui eu que lhe disse que se pusesse acima de todos, e ela citou-me isso «não és tu que dizes que nos devemos por sempre em primeiro lugar? que não se deve amar ninguém mais do que amamos a nós mesmos?». pus-me a pensar que eu não consegui cumprir isso, será que ela conseguiria? continuámos a andar e, a dada altura, ela disse «oh, eu digo que ia, mas não conseguia ir sem ti e sem a ana». e eu, aqui estou, a pensar que também não conseguia ir sem meter umas quantas coisas na mala. começava por por as minhas irmãs, depois, escondido, bem escondido, punha o daniel. depois, punha as minhas amigas, depois, fechava a mala. punha-me a pensar na avó, que queria levá-la também, e ao avô - punha-os lá e fechava a mala. voltava a abri-la e acabava por querer por o meu irmão david, a namorada e o "nosso" bebé, não exactamente por não conseguir viver sem eles, mas por achar que ele se sentiria só sem a família, que somos somente nós, irmãos, e o orgulho o impediria de dizer «não vão que vou sentir a vossa falta». depois, fechava a mala, para em seguida voltar a abri-la. punha aquela bola de resina, desaparecida há anos, se a encontrasse, que trouxe da tenência. depois, antes de fechar a mala, punha a fotografia da minha bisavó. depois, punha as árvores e as estrelas que vejo da janela à noite, quando me dá a melancolia e me meto a fumar a horas tardias. o meu caderno de objectivos de vida tinha de ir - ter uma ovelha, aprender italiano - para me lembrar que a vida me tem concedido algumas das coisas que queria, talvez as outras venham ter comigo um dia. punha também os meus livros favoritos, que enchem duas ou três caixas de cartão. depois, punha um punhado da terra de almada num bolso, um dos bolos da minha pastelaria favorita no outro. só aí partiria, com muitos acenos de despedida a muita gente que amo, e as lágrimas, não as conteria. só não levaria na mala o que não quisesse vir, ainda que fosse o que eu mais quereria levar. e, chegando ao meu destino, ainda com cadernos de objectivos, terra de almada, bolos da "loja do pão", bolas de resina, passaria os meus restantes dias a definhar de saudade da única coisa que teria ficado para trás, e que tanto amo, com os livros de lado e a água como simples h2o. mesmo que fumasse a horas tardias e que, sob a minha janela, o céu estivesse carregado com as estrelas de sempre.

é por isso que se aproximam duas estradas que divergem num bosque: e eu, em qual das duas viajarei, sem a minha preciosa mala, com a consciência de tudo o que ficaria para trás, irrecuperável?

2 Novembro 2010

loureiro

 
(foto by raquel baptista - rodrigo's mom)

Ainda não tinha saído da cama quando o pensamento me atingiu: os Loureiro estavam condenados a desaparecer. É verdade absoluta, entre nós, que os homens Loureiro são uns zeros à esquerda comparados com a conduta e as conquistas das mulheres mas, verdade seja dita, não é através de nós que o nome continua. A minha bisavó teve cinco filhos, dois dos quais tiveram filhos homens, e desses que tiveram filhos homens, só o meu pai teve filhos homens. E é isso, o nosso sobrenome ia morrer aqui. Tantos outros se interpuseram, através de casamentos e nascimentos, que o nosso sobrenome estava condenado a desaparecer por este beco por onde enveredou. Hoje de manhã, pensava no meu bebé, no quanto o meu irmão queria um rapaz e não lhe via outra utilidade, por ser rapaz, que não a de querer um filho para ser do Sporting como ele e para jogar à bola, um dia. Depois perguntei-me se a natureza não agirá inconscientemente, se não será do instinto de cada um, especialmente de cada homem, dar continuidade ao seu sangue. Sangue esse nosso que, simbólicamente, acabaria connosco. Agora existe o Rodrigo, Rodrigo Loureiro, e apetece-me sorrir só de constatar isso. Embora por vezes me pareça que pertence mais à família da mãe que à nossa, até por questões geográficas, é Loureiro que ele se chama, é o nosso nome e o nosso sangue que ele vai continuar. Porque eu e as minhas duas irmãs, a ter filhos, não serão Loureiro.

Rodrigo Loureiro, salvador do nosso nome, sem eira nem beira.

1 Novembro 2010

por 30 segundos, voltar atrás

«Os dois conversavam, na noite, sobre um assunto qualquer banal. O orçamento de estado, por exemplo. A dada altura, ela que, sentada, mantivera o rosto erguido para ele, de pé, foi incapaz de esconder um sorriso e desviou o olhar dele. A consciência de que o assunto ficara pendende nos lábios dele, orador, ao vê-la a ela, ouvinte, esboçar aquele sorriso, fê-la sorrir ainda mais abertamente e fitar a rua quase deserta. Esperava, a cada momento, que ele lhe perguntasse porque sorria. Não tinha grande certeza se saberia responder, se sorria apenas porque os seus lábios fugiam para sorrisos quando estava perto dele, ou porque o brilho no olhar dele lhe inspirava uma paz e uma segurança que só poderiam ser traduzidas em felicidade, mas sabia que preferia que ele não lho perguntasse, pois ela não sabia mentir. Ele fê-lo, no entanto, as mãos estáticas a meio de um gesto, um buraco a pontuar-lhe a frase.«De que é que te estás a rir?», perguntou, sem conseguir esconder ele próprio um sorriso. Ela abanou negativamente a cabeça, uma e outra vez, fitando tudo menos a ele, pois a cada vez que o olhasse, sorriria. Ganhou fôlego, pôs as ideias no lugar e explicou-lhe o porquê surpreendida de, a cada palavra, estar segura da sua veracidade e da sua concordância:«Estou-me a rir porque, daqui a vinte anos, vou estar a abastecer o carro numa bomba de gasolina qualquer, e o teu vai parar ao lado do meu, e eu vou reconhecer-te, apesar dos óculos de sol e das rugas na testa e da criança na cadeirinha no banco de trás. E, na altura, já nem sequer vamos ter intimidade para nos falarmos, mas eu vou saber que foste o amor da minha vida, e isso vai trazer-me melancolia, e vai fazer-me desejar poder voltar atrás, nem que fosse por trinta segundos, e reviver o tempo em que, mesmo sem que gostasses igualmente de mim, éramos dois sob o céu nocturno a conversar sobre assuntos como o orçamento de estado e as nossas expectativas de futuro - só aí teve coragem de olhar para ele, ainda com o sorriso a dançar-lhe nos lábios e nos olhos - E estava a sorrir porque, em retrospectiva, estou em êxtase, estou transbordante de felicidade por, mesmo sem ser correspondida, estar a viver esses trinta segundos preciosos agora, neste momento.»

1 Novembro 2010

I don't know why

foi um sonho bom. estava de férias, não sei ao certo onde. era uma espécie de uma vivenda grande, eram várias iguais. ligavam-me a dizer que uma amiga minha que tinha saído há pouco tempo se tinha esquecido do gato lá. só podia ser a vanessa. depois, estávamos todos num pátio, num pátio onde estranhos se sentavam em cadeiras de esplanada, comiam sardinhas e bebiam cerveja. eram estrangeiros, ingleses. e alguém era chamado ao microfone, a cantar qualquer coisa. não me recordo da canção que cantou, sei que, em seguida, perguntaram se mais alguém queria ir cantar. e eu pus a mão no ar e gritei que queria ir, não fosse faltar-me a coragem, não fosse calarem-me a voz. e lá fui, peguei no microfone e demorei apenas dez segundos a escolher a música. depois, fechei os olhos e não vi mais ninguém. nalgumas ascenções, a voz faltava-me, eu imprimia-lhe força, saía meio rouca mas, algures, batiam-se palmas e eu, animada, não me assustava assim tanto com o falhanço. ouvia, indistintos, os comentários dos estrangeiros. e eu que não procurava dar sentido às palavras da canção mas sim, ao invés, abraçar o seu ambiente requintado, quente, de noites de verão, de tardes de inverno a ver a chuva lavar as vidraças, com um copo de vinho entre os dedos e a solidão a deixar-nos ser. you'll be on my mind forever...

I waited 'til I saw the sun
I don't know why
I didn't come
I left you by the house of fun
I don't know why
I didn't come
I don't know why I didn't come

When I saw the break of day
I wished that I could fly away
Instead of kneeling in the sand
Catching tear drops in my hand

My heart is drenched in wine
You'll be on my mind
Forever

Out across the endless sea
I would die in ecstasy
But I'll be a vagabond
Driving down the road alone

My heart is drenched in wine
You'll be on my mindForever

Something has to make you run
I don't know why I didn't come
I feel as empty as a drum
I don't know why I didn't come
I don't know why I didn't come
I don't know why I didn't come
 
30 Outubro 2010

numa nesga de sol, sob os plátanos

nós dois num refeitório que serve de hall. eu a estranhar o tamanho das cadeiras e da mesa, baixos como eu. tu a sujar os lábios com um croissant de chocolate. nós inclinados, as testas quase a tocar-se, os nossos rostos como espelhos, os teus olhos nos meus, e tu, a dizer: eu às vezes, quando vejo televisão, penso em ti. tenho saudades tuas. e eu a sentir que, de alguma forma, está poesia a tecer-se. se a poesia está a acontecer, não pode ser triste e não pode ser exactamente mau. prefiro acreditar que a vida está a seguir o seu curso.

nós num pátio rodeados de plátanos, com gafanhotos sobre as folhas caídas - é outono - e a escalarem os muros de cal. nós sentados lado a lado no único trecho banhado pelo sol matinal do pátio. os nossos rostos como espelhos, as nossas mãos a tocarem-se ocasionalmente, e tu a fazeres-me pergunta atrás de pergunta. por uma vez, não me aborreço por ter de dar respostas. e como é estranho que as tuas perguntas, os teus receios, façam muito mais sentido do que muitas das coisas que oiço diariamente. dizes-me: eu não durmo, tenho medo de dormir, sonho com uma mãe branca e com um homem a correr atrás de mim. e eu digo-te:

dorme e sonha muito, quando te deitares pensa só em coisas boas. tapa-te bem tapadinho, fecha os olhos e põe-te a pensar naquilo que gostas mais: imagina uma mesa cheia de doces, chocolates, aquilo tudo que gostamos de comer, imagina pela janela uma paisagem linda, imagina que, na televisão, está a dar os teus desenhos animados preferidos. não achas que vale a pena sonhar?

Seja como for, a vida não nos retira a possibilidade de ser felizes em sonhos.

James Horner - Exploring the Florest (The Boy in the Stripped Pyjamas soundtrack)
28 Outubro 2010

don't ever worry...

quando tu nasceste, eu ouvia diariamente uma música chamada «'ll catch you», duma tal banda chamada «the get up kids». hoje lembrei-me disso, conforme os nossos dia-a-dias se vão misturando. era suposto cresceres longe de mim, vires visitar-me ao fim-de-semana. agora, ao invés, vieste morar comigo, tu e a nossa irmã 'do meio', a cláu. agora ponho-me a pensar que nasci de novo e que, com a cláudia, voltei à anselmo de andrade e, contigo, vou voltar à escola número 1 de almada. fazes-me feliz nas pequenas coisas, basta o teu sorriso traquina. e porque hoje se falou exactamente disso, em ser-se feliz com as pequenas coisas, eu quero agradecer à consciência geral, aos ouvidos do universo, se é que os tem, por ser capaz de ser feliz com pouco. e só vocês poderiam ter-me ensinado isso. como hoje, quando tu, à mesa do lanche, provaste que levaste a sério as palavras da médica e abdicaste do pão com chocolate e do leite com chocolate e, ao invés, bebeste leite simples e comeste um pão com manteiga. no final, abriste os braços e sorriste: e eu que te digo dez vezes por dia, a cada vez que viras um copo de leite ou que deixas cair uma bolacha, que somos pobres, que aqui não pode haver disperdícios. tu, que abriste os braços e sorriste, disseste, em toda a tua inocência, com toda a tua verdade, dirigindo o olhar para o armário que recebeu ontem o aviado mensal, que sempre tinhas sabido que a casa da avó não era rica, mas que nunca tinhas visto tanta comida.

és feliz com pouco, e eu sou feliz contigo. e, no final das contas, tu é que tens razão. que mais se pode querer?

por isso don't worry, i'll always catch you.

The Get Up Kids - I'll Catch You

can you sleep as the sound hits your ears?
one at a time an unspoken balance here
unabridged for so many years

that I should stare at receivers
to receive her isn't fair
don't worry I'll catch you
don't worry I'll catch you
don't ever worry

your arms in mine any time
wouldn't trade anything
you're still my everything

to my suprise before my eyes you arrive
don't worry I'll catch you
don't worry I'll catch you
don't ever worry

still breaking old habits, habits
you pulled the wool over me
and I can see everything, everything
remembering Jinx-removing

don't worry I'll catch you
don't wory I'll catch you
don't ever worry

no need for reminding
you're still all that matters to me...

23 Outubro 2010

«a ana é p'lo mal»

Estamos deitadas entre a minha avó e o meu avô, enquanto eles vêm televisão. Os cobertores entopem-me o nariz e a respiração, na brincadeira, digo:
- Não sei se vou sobreviver a esta noite, por causa da alergia...
A minha avó hoje foi fortemente convencida por mim e pela Cláudia a comprar uma família de bonecos à nossa irmã mais nova, há uma mãe, um pai e um casal de crianças, empilhados num tubo mais alto que ela. A Ana ficou radiante e a avó ficou verde, diz que ainda não é Natal. Contudo, ao chegar a casa, fez questão de dizer que o mérito da compra é dela. Ao que eu e a Cláudia insistimos que ela apenas financiou.
A Ana está sobre mim, beija-me, beijo a pele suave dela e digo disparates só para irritar a avó:
- Pipz não gostes da velha, ela não te queria dar os bonecos, eu e a Cláudia é que chorámos lá no supermercado para ela trazer, e olha, bateu-nos à frente de toda a gente, mas eu e a Cláudia lutámos tantooo, tantooo, que ela teve de deixar-nos trazer os bonecos para ti!
A avó, ali ao lado, vai fingindo dar palmadas a mim e a ela:
- Isso, a miúda qualquer dia tem uma ideia de mim... Olha Ana a tua irmã é uma falsa, este Natal só te dou prendas a ti.
- Isso é que não! - Diz a Ana, com o dedo no ar - Então eu quando for grande e tiver dinheiro só dou prendas à Célia.
E deixa-se cair para cima de mim, rimos as duas, o avô, que é meio surdo, tenta perceber, e a avó, fingindo-se de indignada, empurra um dedo contra os lábios da Ana e diz:
- Olha então chupa aqui daqui para a frente, não vês mais prendas minhas!
E eu digo:
- Dá uma dentada no dedo da velha, Ana!!!
E a Ana, empoleirando-se como se estivesse a cavalo numa das pernas da avó, afasta o tecido das calças e inclina a cabeça até lhe tocar quase no joelho com o rosto:
- Não, mordo na perna que deve doer mais!

E pum.

21 Outubro 2010