16 de nov. de 2010

este meu chão que é teu

tu dormias
no teu sono, eras criança
e eu quis falar-te disto
como se desafiasse a sorte
ou como se limitasse o teu caminho rumo a um norte
que é mais meu que teu
tu dormias, pequeno
e falei-te do que em mim era maior
tu de olhos fechados
e eu a contar-te a vida de cor:
a vida como vírgula, como pulsação
ou filme a preto e branco

 o meu chão é teu,
as minhas mãos são tuas
a minha noite é silêncio,
o meu dia é chuva,
o meu chão é teu,
as minhas mãos são tuas

já que foste a todas as ruas,
sabe que o meu chão é teu,
e que as minhas mãos são tuas,
quis-te nas minhas paredes
como se te fechasse em mim,
sei que ver-te aí dentro,
é sonho mais meu que teu

tu sonhavas,
e eu na realidade do vazio,
tu noutro lugar
e a vida a correr sem esperar:
como entrelinha, como travessão
ou filme a preto e branco


o meu chão é teu,
as minhas mãos são tuas
a minha noite é silêncio,
o meu dia é chuva,
o meu chão é teu,
as minhas mãos são tuas
os meus gritos são mudos,
os meus gestos falham,
mas o meu chão é teu
e as minhas mãos são tuas
o meu quintal é teu
a minha terra é tua
o meu dia é teu,
a minha água é tua,
o meu chão é teu,
as minhas mãos são tuas.

21 Outubro 2010

(L)

Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Tem dolencia de veludo caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz.

Florbela Espanca - Os versos que te fiz

21 Outubro 2010

insatisfação crónica

É quando leio Florbela Espanca, ou Sylvia Plath, ou Oscar Wilde, ou mesmo Fernando Pessoa, que eu me entendo como uma dessas pessoas que sofrem de insatisfação crónica. Não é que a felicidade não venha, não é que eu não a agarre, é só que me escapa por entre os dedos - e a mão - sou eu que a abro, por gosto de vê-la escapar-lhe.

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca - Lágrimas Ocultas

20 Outubro 2010

i sogni son desideri

«è sempre tragico quando, nei tuoi 20 anni, già sai chi è l'amore della tua vita. l'eternità senza lui è quello che ti aspetta ancora.»

 
(«é sempre trágico quando, aos 20 anos, já sabes quem é o amor da tua vida. a eternidade sem ele é o que te espera»)
18 Outubro 2010

I wish one day I'll be able to say...

«Two roads diverged in a wood, and I — I took the one less traveled by. And that has made all the difference...»

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,


And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


Robert Frost

14 Outubro 2010

em coro

Lamento sobretudo que, existindo, eu não conheça mais do que uma pessoa que se emocione, estremeça, perante cenas de séries históricas em que rainhas mortas são veladas no interior de catedrais góticas, majestosas, em que a própria banda sonora cria o eco. Se pudesse concretizar desejos, se, os meus pensamentos, ganhassem lugar no mundo real, não creio que me desgastasse a pedir riquezas e grandezas e famas. Ao invés, acho que iria cobrar ao mundo pequenos momentos. Acho que ia querer recriar aquela cena, que me sucedeu uma vez, em que, deitada num sofá, no escuro, me ia deixando envolver pela música que tocava baixinho, como suspiro, como respiração das paredes, como a voz do mundo a falar-nos, e entrou alguém. E esse alguém quedou-se perante a beleza e simplicidade do momento e, em seguida, sentou-se e puxou a minha cabeça para o seu colo. E ali ficou, a ajeitar-me o cabelo, a acariciar-me a fronte, enquanto o nosso silêncio adquiria o estatuto de respeitoso, de reverente. E, no final, abriu então a boca para me fazer sorrir: «que momento tão bonito». Como rainhas de branco, mortas, coroadas, em catedrais góticas com música em coro por trás. Se pudesse, viveria desses momentos, mas não sozinha. Se bem que, por muito vazia que esteja a sala, em solidão não estou. Solidão é outra coisa, não é não estar-se com ninguém, é não se ter ninguém. Viveria então da quietude dos silêncios de apreciação das obras de arte, simplesmente falam comigo.

A Howling Wilderness: the Deat - Trevor Morris (The Tudors 3rd Season soundrack)


 13 Outubro 2010

boo

foi numa noite de chuva, é assim que começarei um dia quando recontar o dia de hoje. chovia, o cão estava deitado sobre o tapete da entrada, com o focinho entre as patas, gania baixinho. vendo-o tão deprimido, virei-me para a minha mãe e perguntei: «mãe, achas que ele se apercebeu que esta foi a última vez que viu as suas adoradas meninas? achas que sabe que amanhã vai para um canil?». ela respondeu que acha que sim, que ele anda estranho, anda tristonho, anda melancólico. vejo-o olhar demoradamente para a dona, enquanto a chuva cai ao nosso redor, e nós abrigados, e ele deitado, elegante, jovem, os olhos meigos a fitarem-na. entendo que muitas decisões são tomadas com o coração, e geralmente o resultado é bom a curto prazo mas desastroso posteriormente. se ela tivesse pensado com a cabeça, nunca se teria rendido ao cachorrinho adorável que, há quatro anos atrás, trouxe para casa, e que cresceu com a sua filha ainda por nascer na altura, e que é da mesma idade dele. ele protege-as, fica em baixo com a falta delas e doido quando as vê. ao menos conheceu ainda o nosso rodriguinho, protegê-lo-ia também, o teimoso, o parvo do cão, como lhe chamávamos carinhosamente (ou não, muitas foram as irritações). foi nesse dia que ele saiu das nossas vida, quero crer. já houve aquela outra vez em que a nossa mãe saiu de casa com ele num carro, e nós os cinco nos abraçámos em casa, eu a consolar os mais pequenos, o david impassível, de rosto fechado, o daniel do seu jeito diferente tão agitado e triste como os outros, a aninha pequena demais para compreender. houve lágrimas, entre nós comentámos os momentos felizes com o Boo, e no final a porta abriu-se, a nossa mãe entrou a esfregar o pescoço, de rosto baixo, e o Boo entrou a correr, lançou-se a nós como se fosse um reencontro feliz. ela disse simplesmente «não tive coragem de me desfazer dele», e nós pusémo-nos a rir e a afagar-lhe o pelo. mas, desde aí, os problemas não terminaram. e hoje, creio, é o último dia do Boo connosco. e o Boo sabe.
(Danny&Boo by celia)
10 Outubro 2010