17 de jan. de 2011

corrida final

Ao contrário de toda a gente, tenho o hábito de abrandar o ritmo quando estou a chegar à meta. As minhas motivações têm pouco que ver com a necessidade premente de passar de ano. Não consigo mergulhar de cabeça num assunto que não me importo, sinto que a minha cabeça está cheia de coisas com e sem significância e sinto que estou a martirizá-la com mais impropérios.  É por isso que tenho que me apaixonar. É por isso que espero que o assunto me chame, reclame a minha atenção, e só aí estou lá de corpo e alma. Isto nem deveria ser assim tão grave, uma vez que me interesso por quase tudo. Mas, de vez em quando, lá vem uma coisa, ou pior, um conjunto de coisas ou uma cadeira completa que não me interessa nem um bocadinho. É por isso que a deixo ir abaixo, estupidamente, e me esqueço momentaneamente do objectivo final. Agora, ao recordá-lo, fui resgatar as forças, espero que não seja tarde demais. Mas, na generalidade, isto está a afundar. Acordei há pouco, resgatei alguns cacos do naufrágio e estou a tentar recuperar o navio. No entanto, eu, a quem a professora de história elogiava a objectividade, ando perdida em divagações. Fujo para as minhas paixões, sei que o professor me pergunta 1) e sei que em 1) c) existe um nicho de assunto que me interessa – escapulo-me para lá. Disserto sobre isso, sinto-me revitalizada enquanto o faço, como se afinal não estivesse assim tão perdida, como se afinal ainda conseguisse reter as datas todas na cabeça, como há pouco tempo atrás, e ainda carregasse a cultura geral como numa malinha atrás de mim. No entanto, sei que estou a responder a uma vírgula daquilo que me perguntaram. Faço um trabalho que confronta o património português e a História do país, e o que é que faço? Sei que se espera a Torre de Belém e as conquistas na costa ocidental da África, sei que quer o Padrão dos Descobrimentos e o Estado Novo, o nacionalismo, a expansão marítima dos séculos XV/XVI. Sei que quer a Batalha e Aljubarrota esmiuçados, D. Nuno Álvares Pereira associado e, por contraposição, o Convento do Carmo, que leva ao terramoto de 1755. Sei que quer o Mosteiro dos Jerónimos e a época gloriosa da nação portuguesa, a pimenta que custeou aquelas paredes, os pilares que podem, ou não, recordar palmeiras só vistas pelos portugueses à época, os elefantes a suportar o túmulo de Manuel I, único rei europeu que na altura se podia gabar de ter contacto com aquelas criaturas exóticas. Sei disso tudo, no entanto, fujo do monumento e reconto a História. Um trabalho intitulado «Histoire du Portugal», imaginem só, e eu, apaixonada da História… a cingir-me aos monumentos? São os confrontos que me interessam, são as quezílias religiosas, as aspirações da burguesia, as pretensões da nobreza, a arrogância da realeza é que tornam o assunto entusiasmante. Enfim, isto também não era para ser um texto sobre História. Mas sim sobre o facto de que o que me anima está cada vez mais reduzido, sou bombardeada com assuntos que não me interessam. Isto dá-me sempre em vésperas de exames, digo-o a propósito do de amanhã. Malditas Técnicas de Condução de Grupos. Eu não vou ser guia! Não que não seja um dos meus sonhos, porque a vida é só uma, e pequena, mas ainda assim podemos ser muitas coisas. Era esse o meu plano: ser guia enquanto não quisesse estar em casa às 19h para fazer o jantar ao marido e aos filhos. Se o marido nunca viesse, quem sabe se por ser guia e nunca estar parada no mesmo lugar, talvez prosseguisse sendo guia até às vésperas da menopausa, altura em que estaria desesperada para experimentar ser mãe antes que fosse tarde demais. Se o marido viesse e fosse d’outra nacionalidade, como é habitual entre os guias, quem sabe agarrasse nas malas e fosse morar para outro lado. Quem sabe nos divorciássemos e eu voltasse a Portugal, voltasse a sentir-me eu mesma, portuguesa, e ele soa-se a uma aventura, a um episódio engraçado, o marido «belga», lembrado com risadas. Enfim, já nem sei que digo… Depois, quando chegasse a hora de estar em casa às 19h, queria ser professora de História. Iria gozar melhor a meia-idade, as rugas da minha testa, os cabelos brancos e a flacidez, se estivesse ligada ao ensino da História, como se isso se traduzisse em experiência, em sabedoria, em ter vivido muito e ter assistido a muito. Nessa altura, ser pequenina já não é acompanhado de ditos como «a mulher quer-se é pequenina, como a sardinha». Ao invés, com a idade, a minha coluna há-de inclinar-se e hei-de encolher ainda mais. Vou ser a típica bruxa baixa e má, nessa altura já nem terei paciência para corrigir quem me julgar assim. Quem me perceber, bendito seja, quem não… creia de facto que lhe enfio a História boca abaixo só porque sou pérfida. E pronto, eram estes os meus planos. Viajar muito, receber estrangeiros, que me dá autêntico gozo, dar-lhes um bocadinho mais de mim do que era suposto, não creio que conseguisse pôr a minha sinceridade e a minha humanidade de lado quando me fizessem perguntas com vista a respostas sinceras. Não sei pintar quadros bonitos em tormentas. Sei que seria realizada também no campo profissional, sim, mas agora não é a hora. A minha corrida final, em direcção à meta de terminar a licenciatura, já sem sofrido imenso solavancos devido aos meus abrandamentos e acessos de cansaço. Tenho que ser realista: a meta de uma finalíssima seria a morte. Não tenho espírito, nem força, nem fundos para investir numa causa perdida. Mas… e então? Só tenho 21 anos, a geração anterior licenciou-se por volta dos 30. Se me licenciar agora, levo-lhes quase uma década de avanço.  Porque não tentar a finalíssima mais tarde? Ainda assim, recuso-me a estar parada um dia que seja enquanto o tempo continua a correr. A cada minuto, posso fazer um investimento, a cada instante, estou mais velha, a cada instante, perco qualquer coisa. Quero agarrar nisto tudo com as duas mãos e atirá-lo para a frente, na direcção do futuro, por muito que me custe inclinar-me agora e projectar os meus sonhos lá para a frente, onde um dia irei colhê-los. Não posso arrastar-me de robe por casa e fazer do facebook a minha distracção, não posso acordar ainda mais tarde do que já acordo. É por isso que, de momento, só me resta a opção c) Paris.

a)      Ganhar o euromilhões
b)     Virar génio e fazer a Licenciatura e a Finalíssima
c)      Paris
d) Destino

Um comentário:

  1. Se vais para Paris de França, toma lá :) :p

    http://www.youtube.com/watch?v=k_93yBnaZEM


    (escrevi-te)

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